Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O que se esperava ser a consagração de um fenômeno transformou‑se em um dos capítulos mais humanos e dramáticos desta edição de Milano Cortina. Ilia Malinin, até ontem visto como o «deus dos quádruplos», viu sua autoridade técnica desmanchar no free skate: erros em todos os saltos que fazem parte do seu repertório, execução instável e, ao fim, uma 15ª posição que contrasta com as expectativas que o antecediam.
Na Milano Ice Skating Arena, a tensão provou ser tão concreta quanto o gelo. O lançamento do seu mítico quadruplo Axel — salto que prometia entrada direta na história — não cumpriu a narrativa esperada. Outros elementos fundamentais, como o loop e o lutz, tiveram passagens defeituosas; o raro backflip, ainda que executado, não foi suficiente para recompor um programa marcado pelo desequilíbrio técnico e emocional. Os juízes, implacáveis no cômputo dos elementos, colocaram Malinin atrás de patinadores como Matteo Rizzo no livre.
Num evento em que vários favoritos vacilaram, emergiu a figura improvável do jovem de Almaty: Mikhail Shaidorov, 21 anos, que já trazia no currículo a prata mundial. Ao optar por uma performance limpa, com cinco quádruplos bem geridos — e sem tentar forçar o extraordinário —, conquistou um ouro que poucos prognosticavam. O Japão, beneficiado pelo festival de erros, garantiu as outras duas medalhas: prata para Yuma Kagiyama e bronze para Shun Sato.
Psicólogos do esporte não evitaram a expressão mais dura: um verdadeiro «suicídio esportivo», no sentido de excesso de pressão e de expectativa que o próprio atleta impôs. A analogia com casos de atletas que exigiram demais do corpo — como se costuma lembrar no episódio de Lindsey Vonn — serve para iluminar a mesma dinâmica psicológica: talento e velocidade técnica não são barreiras contra o peso simbólico da fama.
Outros nomes de relevância também sucumbiram ao contexto. Adam Siao Him Fa, que estava bem localizado após o curto, perdeu desempenho e caiu para o sétimo lugar; Daniel Grassl, partindo em boa posição, terminou com um livre aquém do esperado, não superando o sexto lugar histórico que Carlo Fassi alcançou em Oslo 1952. O espetáculo, entre lâminas e emoções, exibiu que numa corrida por limites técnicos a margem de erro se reduz a pó.
Há, nessa derrota coletiva e nessa vitória surpresa, um ensinamento sobre como se constrói a memória esportiva. O gesto de Shaidorov — limpo, contido, estrategicamente correto — lembra que, em competições desse calibre, a gestão do risco é tão decisiva quanto a capacidade de realizar manobras fora do comum. Malinin, por sua vez, permanece um caso paradigmático: detentor de técnica e velocidade para ir além do que poucos ousam, agora confrontado com a necessidade de recalibrar objetivos e estratégias.
Na plateia, figuras como Carolina Kostner acompanhavam de perto a evolução do torneio; Simone Biles, entre os espectadores, aplaudiu o talento quando possível. Resta observar o que os próximos dias — e os compromissos comerciais que aguardam Malinin em Milão — trarão a um atleta cuja narrativa pública mudou em questão de minutos.
Este episódio não é apenas um resultado esportivo: é um momento de reflexão sobre a cultura do espetáculo, sobre até onde os atletas são empurrados a transformar risco em produto. E, talvez acima de tudo, é um lembrete de que o esporte, por mais tecnológico e performático, segue sendo uma atividade humana, sujeita a falhas e a reviravoltas.





















