Por Otávio Marchesini — Em Varna, pequena localidade do Alto Ádige aos pés das Dolomitas, existe um ateliê que poucas manchetes destacam, mas cujo trabalho acompanha muitas glórias do esporte italiano e internacional. Herbert Rabensteiner é o homem por trás das solas e dos ajustes finos que ajudam atletas como Dominik Paris, Lindsey Vonn, Mikaela Shiffrin, Christof Innerhofer e Roland Fischnaller a transformarem esforço em resultado.
Minha leitura, enquanto jornalista atento às tramas culturais do desporto, distingue nós sociais: o atleta é a face visível; a engrenagem inclui técnicos, fisioterapeutas e, como no caso de Rabensteiner, o especialista do pé — o calçado como prolongamento do corpo. Herbert não começou por vocação mística, mas por ofício. Fez seu aprendizado em 1987, numa oficina de Bolzano. Em 1992, aos 23 anos, abriu sua própria marca em Bressanone: Schuhbert, um trocadilho entre seu nome e o termo alemão para sapato, Schuh.
Ao longo das décadas, o ofício mudou. A industrialização e a queda do custo dos calçados alteraram a demanda: consertar passou a ser menos frequente; comprar novo, mais prático. Diante disso, Herbert especializou-se. Em vez de remendos, passou a produzir plantari ortopédicos, soletas personalizadas e peças técnicas para esportistas cujo desempenho depende de centímetros e sensações mínimas.
O processo, explica ele, é tanto técnico quanto antropológico: primeiro se identifica o cliente — há diferença abissal entre o “esquiador de fim de semana” e o atleta profissional. Depois vem a seleção do material e a medição precisa do pé. Erros comuns persistem: botas grandes demais, por exemplo, costumam gerar lesões e perda de performance. É por essa precisão que muitos campeões o procuram.
Os custos não são modestos: por se tratarem de produtos sob medida, os valores refletem a técnica e os materiais. Herbert cita cifras de referência: cerca de 600 euros para proteções de antebraço (ou brinquedos técnicos semelhantes ao mercado de esqui), entre 400 e 800 euros para soletas e de 800 a 1.300 euros para botas específicas. Valor que, para clubes e atletas, é investimento em prevenção e rendimento.
Existem também histórias que humanizam essa relação profissional. Rabensteiner recorda quando Dominik Paris aparecia na loja aos 12 anos, ainda menino, e quando entregou um par de soletas a um atleta que se apresentou em bermuda — cenas que hoje soam corriqueiras, mas que, há anos, já entrelaçavam trajetória e ofício. O vínculo com Christof Innerhofer é mais íntimo: além do atendimento, há amizade e encontros fora da loja, uma proximidade que ilustra como a confiança técnica se transforma em laços pessoais.
Gerir uma oficina pequena diante de grandes fabricantes é desafio constante. “Somos um peixe pequeno num mar de grandes tubarões”, diz Herbert, que, ainda assim, encontra vantagem na inovação: ideias nascidas em sua bancada acabam copiadas por marcas maiores — um indício, segundo ele, de que o caminho seguido tem consistência.
As solicitações não cessam: há quem o procure às vésperas de uma prova, quem o telefonema depois de uma medalha. No passado, Herbert trabalhava até no Natal para ajustar detalhes decisivos. Hoje, com a carreira consolidada, confessa que acompanha boa parte desses atletas «de casa», observando o efeito do seu trabalho no campo do jogo e nas páginas da história esportiva.
Como analista, vejo neste ofício uma metáfora cultural: o esporte moderno demanda microespecializações que, longe dos holofotes, sustentam narrativas públicas de vitória. O trabalho de um calçolaio técnico como Herbert evidencia que a excelência competitiva é também um produto de redes, memórias e saberes tácitos — uma lição sobre como a tradição artesanal continua a moldar o futuro do esporte.






















