CORTINA D’AMPEZZO — Vladyslav Heraskevych, o atleta ucraniano de skeleton, declarou nesta quinta-feira que vai recorrer ao TAS (Tribunal Arbitral do Esporte) após ter sido desqualificado por se recusar a trocar o capacete que exibia os rostos de atletas ucranianos mortos na guerra. A posição do competidor, anunciada em Cortina, reacende o debate sobre os limites das manifestações pessoais em provas olímpicas e sobre a aplicação das regras pelo COI.
“Acredito que devemos continuar a lutar pelos nossos direitos”, afirmou Heraskevych. “Disse desde o primeiro dia que discordo do que o COI nos diz, portanto provavelmente apresentaremos um recurso ao TAS e defenderemos nossos direitos”. Em sua denúncia, o atleta ressaltou uma alegada desigualdade de tratamento: segundo ele, outros competidores já haviam expressado posições durante os Jogos sem sofrer penalizações semelhantes, e, de forma inesperada, apenas um atleta ucraniano foi punido por usar aquele capacete — que, nas palavras do próprio, não violaria nenhuma regra.
O caso coloca em evidência questões que transcendem a competição esportiva: trata-se de como as instituições olímpicas lidam com simbologias que nascem da guerra, do luto e da identidade nacional. Para observadores, a imagem de um capacete não é só um objeto técnico, é um enunciado político e moral que dialoga com a memória coletiva da Ucrânia em tempos de conflito. A reação institucional, por sua vez, reflete o esforço do movimento olímpico em manter a suposta neutralidade política dos Jogos — uma neutralidade que frequentemente encontra limites precisamente quando as reivindicações tocam vidas e perdas humanas.
O uso de um recurso ao TAS abrirá um capítulo jurídico que pode demorar semanas ou meses, dependendo da tramitação e das medidas cautelares solicitadas. O Tribunal Arbitral do Esporte é a instância tradicional para contenciosos desse tipo e terá de balancear regras técnicas do regulamento com liberdades de expressão e circunstâncias excepcionais de guerra.
Como repórter e analista, é obrigatório observar que episódios assim não se restringem ao gesto de um atleta: também revelam tensões entre federações, o COI, e os comitês nacionais sobre quem define o que é aceitável em uma vitrine global. A história do esporte está repleta de momentos em que sinais simbólicos — braçadeiras, gestos, slogans — forçaram as instituições a revisitar normas e a negociar novos códigos de convivência dentro das arenas.
Enquanto o processo se encaminha, resta acompanhar não apenas a decisão técnica do TAS, mas também as reverberações políticas e culturais na comunidade esportiva europeia. A singularidade do gesto de Heraskevych o transforma em um caso de estudo sobre como o esporte contemporâneo se tornou campo de disputas por memória, justiça e representação nacional.
Atualizaremos esta reportagem com informações sobre o recurso e eventuais posicionamentos oficiais do COI, da Federação Internacional de Skeleton e do próprio TAS.





















