Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em Kiev, o esqueleto da controvérsia é também um espelho. Vladyslav Heraskevych, atleta ucraniano cuja exclusão das competições de skeleton no evento de inverno suscitou debates sobre memória, política e regras desportivas, reafirma com tranquilidade que não se arrepende de ter querido usar o seu capacete marcado com as imagens de 24 compatriotas mortos na guerra contra a invasão russa. Para ele, aquilo que foi tratado como uma transgressão técnica representa uma forma de memória coletiva e de denúncia.
«Sinto-me honrado, privilegiado e feliz pela maneira como fui tratado pela Itália, pelas suas instituições e pelo seu povo. O aplauso que recebi com a minha equipa na cerimónia de abertura em Cortina ficará comigo para toda vida», disse Heraskevych numa entrevista onde não poupou críticas ao Comitê Olímpico Internacional — o COI — e ao que interpreta como uma capitulação simbólica diante da Rússia.
A exclusão do atleta ocorreu depois de o COI ter entendido que o capacete extrapolava o espaço desportivo por conter imagens com carga política e memorial. Heraskevych, porém, vê nessa decisão uma contradição: «A desqualificação foi injusta. Não estou arrependido de ter insistido em competir com o capacete; foi justo e eu faria de novo», afirmou, mantendo a postura de quem trata o esporte como palco social e político, e não apenas como estatística.
A recepção italiana, segundo ele, foi um contrapeso significativo. Além do calor do público em Cortina, o apoio manifestado por cidadãos e mesmo por partes do Parlamento italiano foi sentido como reconhecimento da dimensão humana do seu gesto. «Vi pessoas a cantar canções ucranianas nas ruas, senti emoção verdadeira. Isso confirma que o esporte pode ser um meio para a memória e a solidariedade», disse o atleta.
Mais duro foi o seu comentário sobre a presença prevista de atletas russos e bielorrussos nas próximas Paralimpíadas em território italiano. «É chocante. Perde-se a esperança quando decisões como essa passam por cima da justiça. Muitos desses atletas não tinham competido internacionalmente desde o início da invasão e agora, subitamente, teriam permissão para participar até com símbolos nacionais. É uma anomalia», declarou. Há mesmo relatos não confirmados de que na competição paralímpica poderão participar ex-soldados russos, informação que Heraskevych qualificou de escandalosa.
Este episódio coloca em tensão dois princípios caros ao olimpismo: a neutralidade política e o papel do desporto como espaço de expressão cívica. Para observadores que, como eu, leem o esporte como fenómeno cultural e político, a questão não se reduz à letra do regulamento. Trata-se de decidir que memória se permite no centro das atenções públicas e quem tem voz nas narrativas internacionais do espetáculo desportivo.
Heraskevych transformou um objeto — um capacete — em emblema. A consequência foi pessoal (a sua exclusão) e simbólica (o debate sobre os limites do gesto). A Itália e o público de Cortina ofereceram-lhe acolhimento; o COI ofereceu uma interpretação rígida das regras. O que permanece em aberto é a eficácia do gesto do atleta: foi suficiente para manter viva a lembrança dos 24 ucranianos que retratou? Na esfera pública, a resposta tende para sim, porque o gesto já circula como imagem e narrativa.
Como analista, não posso reduzir a história a uma tomada de posição simplista. Há contradições institucionais e riscos de instrumentalização política tanto por parte dos Estados quanto das organizações desportivas. Mas igualmente existe uma ética da lembrança que desafia a ideia de neutralidade absoluta no esporte, sobretudo quando as armas e os estádios se cruzam nas fronteiras da memória coletiva.
Heraskevych volta a Kiev com a sensação de ter cumprido um dever moral. Disse que agradece profundamente a Itália — e que a sensação do aplauso lhe será eterna. Quanto ao COI, mantém a crítica: «faz o jogo da Rússia», afirmou, sem arrependimentos. É uma frase que, independentemente de concordâncias, obriga a uma reflexão sobre como as instituições internacionais equilibram regras e humanidade em tempos de guerra.






















