Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
Sobre as encostas das Tofane, a cena é ao mesmo tempo íntima e monumental. Sofia Goggia segue sozinha na cadeira, o rosto envolvido em pensamentos que pesam tanto quanto a expectativa coletiva. A luz atravessa as nuvens e ilumina a pista Olympia, palco onde construiu uma trajetória de conquistas — quatro vitórias, todas em descida — e também onde sofreu a queda que a lançou em uma recuperação acelerada rumo à medalha em Pequim.
O contexto é nítido: domingo, às 11h30, a descida livre de Cortina concentra atenção nacional e internacional. Para Goggia, escolhida para acender o braseiro olímpico, o momento tem contornos rituais. «Foi uma alegria che raramente viverei novamente», disse ela, descrevendo o ato como algo sagrado. Mas, acima da cerimônia, existe a fricção do desempenho. A pista que a consagrou também lembra o risco — e lembra a escalada que transformou lesão em prata olímpica apenas 23 dias depois, em 2022.
Há uma consciência técnica e psicológica clara: Goggia afirma ter preparado 80% da prova no corpo e o restante foi afinado com videoanálise. O seu foco está na primeira travessia — ali, estima, se definirá a corrida. A pressão, segundo ela, pesa sobre quem já fez tudo perfeito; contudo, a expectativa pública recai sobre seus ombros. Em termos de representação simbólica, a alemã capacidade de controlar a emoção num cenário tão amplificado revela muito sobre o papel do atleta como depositário de uma memória e de uma projeção coletiva — não apenas como executante de voltas e linhas.
Ao lado de Goggia, a Itália feminina se apoia em outras figuras relevantes. Federica Brignone encara a descida de Cortina com pragmatismo: para ela, é um ensaio para o Super-G de quinta-feira, prova que contará com a presença do presidente Sergio Mattarella. Brignone chegou aos Jogos marcada por dores: na cerimônia de abertura teve dificuldades para caminhar — uma anedota com Amos Mosaner a carregando nos ombros ilustra essa fragilidade quase humana diante do espetáculo — e acordou com o joelho inchado. Ainda assim, a última passagem pelos saltos foi positiva. «Coloquei os esquis onde queria, não senti medo», resumiu. Para ela, a vitória já é poder competir; cada descenso vale como ajuste de linhas e recuperação de confiança.
Na escala das possibilidades, há também nomes como Nicol Delago, vinda de um triunfo em Tarvisio, e Laura Pirovano, compondo um quarteto que torna a equipe italiana competitiva e multifacetada. A presença de vários perfis — a favorita carregada de responsabilidades e a corredora que busca a surpresa — é um aspecto esportivo que traduz também um mapa social: regiões, formações e trajetórias diferentes convergem no mesmo trecho de neve.
Se, para Brignone, a descida é treino e teste, para Goggia qualquer resultado fora do pódio será sentido como derrota. É aí que o esporte ultrapassa cronômetros: transforma-se em símbolo de expectativa coletiva e de projeção de continuidade. No sopro final antes da largada, ficam as linhas de técnica, a gestão da dor e uma memória recente de superações que alimenta, sobretudo, a ideia de que alguns momentos — como acender um braseiro ou cruzar uma primeira travessia perfeita — carregam mais que medalhas; carregam histórias.
Em Cortina, a manhã de domingo promete não apenas uma corrida, mas uma síntese histórica: atletas que carregam um legado, lesões que viraram narrativa e uma plateia que busca no esporte a sua própria reafirmação cultural.





















