Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A manhã de descida feminina em Milano Cortina resultou em um pódio marcado por tensão, interrupções e leituras que vão além do cronômetro. Sofia Goggia conquistou o bronze, sua terceira medalha olímpica na disciplina — após o ouro em PyeongChang 2018 e a prata em Pequim 2022 —, mas saiu da pista com sentimento misto. “Estou um pouco dispiaciuta perché l’attesa non è stata di semplice gestione”, disse à RAI logo após a prova, traduzindo em franqueza a dificuldade em administrar expectativas e imprevistos.
A disputa foi afetada por duas quedas graves. Primeiro, a britânica Lindsey Vonn (nota: no original, figura citada entre favoritas) sofreu uma queda que interrompeu a prova por cerca de 20 minutos; mais tarde, a andorrana Cande Moreno também caiu e precisou ser evacuada de helicóptero. Esses eventos alongaram a espera dos competidores e remodelaram a carga emocional da pista.
No fim das contas, a vitória sorriu à americana Breezy Johnson, campeã mundial em título, que superou por 0,04 segundos a jovem alemã Emma Aicher. Sofia Goggia ficou a 0,58 segundos da líder. A italiana avaliou a sua prova com precisão técnica: “Sono rimasta focalizzata su quello che dovevo fare, avevo gli incubi della prima traversa che oggi mi è riuscita bene mentre ho sbagliato alle Tofane”, admitiu, apontando a um erro menor nas seções das Tofane que custaram segundos preciosos.
Ao olhar para a performance coletiva da equipe italiana, houve motivos de orgulho e sinais de alerta. Laura Pirovano terminou em sexto lugar, a 0,94 segundos da vencedora. “Sono contentissima della mia prima gara olimpica. Ero molto agitata. Sono contenta di come ho sciato, non ho spinto tanto nella parte centrale. Ho fatto tutto quello che mi sentivo di fare”, declarou Pirovano, cuja calma e controle serão recursos valiosos também para o Super-G.
Federica Brignone completou a prova em décimo, a 1,19 segundos, imediatamente à frente de Nicol Delago (11ª). O resultado de Brignone carrega um significado maior do que a colocação: é o retorno competitivo a uma prova de alto risco praticamente um ano após um grave infortúnio nos campeonatos nacionais. Ela própria foi concisa e realista: “Io sono contenta della mia performance visto come sono arrivata qui. Non ho i km e la fiducia dell’anno scorso. Fare una prestazione del genere su una pista di casa dopo quello che ho passato è già una grande manifestazione. Ora ho bisogno di calmarmi un attimo. Devo dare sollievo alla gamba. Non mi vedrete nel team combined.”
Há camadas simbólicas nessa manhã em Cortina: a pista — tradicional e exigente — testou não só a técnica, mas a capacidade dos atletas de administrar pausas não programadas e o impacto psicológico de ver colegas feridos. Para Sofia Goggia, o bronze confirma a constância de uma carreira olímpica de alto nível, mas também lembra a ambição inacabada quando diz que lhe falta “o último cor” no palmarés. Para a equipe italiana, sobram sinais de resiliência e também a necessidade de reconstruir ritmos de confiança nas próximas provas do programa.
Em termos imediatos, a prova reforça que a leitura do esporte como fenômeno social permanece atual: cada descida é uma combinação de técnica, memória de lesões, gestão do medo coletivo e da expectativa pública — sobretudo quando se compete em casa.





















