Por Otávio Marchesini — A medalha de prata conquistada por Giovanni Franzoni em Milano Cortina é, antes de tudo, a confirmação de um percurso que liga raízes regionais, escolhas familiares e uma resiliência construída nas margens do Garda. O resultado olímpico é um capítulo visível de uma história que vinha sendo escrita com lentidão e intensidade: formação no Ski College, uma carreira forjada entre Coppa Europa e Coppa del Mondo, e uma reação moral a perdas pessoais que poderiam ter freado qualquer promessa.
Franzoni nasceu em Manerba del Garda, um município mais associado à vela do que ao esqui. Filho de Irene e Osvaldo, nasceu junto ao irmão gêmeo Alessandro, quando os pais já tinham 40 anos. A mãe, até então proprietária do restaurante “Melograno” em Brescia, vendeu o negócio para se dedicar aos filhos; o pai mantém uma empresa no ramo de comércio de ferro. Essas decisões familiares — que misturam sacrifício econômico e uma aposta na formação esportiva — são parte da estrutura que explica o salto do atleta.
Desde cedo, Giovanni mostrou preferência pela velocidade. Ainda que tenha passado por modalidades como futebol e judô, foi nas pistas de esqui que encontrou sua identidade: começou no gigante e foi, ao longo do tempo, migrando para as provas de velocidade, sem perder a base técnica que o distingue. Há uma anedota que ilumina essa trajetória: em 2009, em San Sicario, numa de suas primeiras provas fora da região, ele se alegrou mais por ter superado o irmão do que pela vitória — vencida naquele dia por um jovem chamado Jannik Sinner, então grafado erroneamente como “Sinn” pela organização. O episódio não é mero detalhe; aponta como gerações atléticas convergem e se reconhecem antes mesmo de se profissionalizarem.
A vida escolar também foi decisiva. Irene matriculou Giovanni no Liceo Scientifico Copernico, em Brescia, com a garantia de que os meninos poderiam conciliar estudos e treinamentos. Ele mantinha uma média razoável (um 7), mas quase foi reprovado por excesso de faltas — um conflito que terminou em acordo familiar e escolar. A partir do segundo ano, a opção pelo Ski College de Falcade representou a institucionalização do projeto esportivo: ali, talentos promissores recebem estrutura que transforma aptidão em rendimento.
Com estreia em provas FIS aos 16 anos (2017) e o salto para a Coppa Europa em 2018, Franzoni tornou-se polivalente, ganhou massa muscular e refinou a técnica. Em 2022, já consolidado, venceu a classificação geral da Copa Europa, depois de colecionar medalhas importantes entre 2021 e 2022. A carreira, porém, não foi uma linha contínua de ascensão: houve lesões e o impacto humano de perder dois amigos e companheiros, acontecimentos que o marcaram e que, paradoxalmente, impulsionaram uma sequência de resultados — cinco pódios entre dezembro e hoje, entre a Copa do Mundo e os Jogos.
Em Manerba, a descida de Franzoni foi acompanhada como um evento coletivo: o palazzetto transformou-se em praça de observação e debate, onde se mede a dimensão social do feito. As dedicatórias do atleta, inclusive, passaram por nomes como Franzoso — lembranças que fazem do pódio um lugar de memória e de vínculo comunitário.
O prata em Milano Cortina é, portanto, mais do que um resultado esportivo: é um nó que amarra escolhas familiares, formação institucional, superações pessoais e uma comunidade que se reconhece num jovem de Manerba. Para Franzoni ainda há três provas pela frente — e se os sinais recentes valem como previsão, o que se vê é um esquiador que interpreta o esporte como trabalho coletivo e representação de um território, não apenas como série de tempos cronometrados.
Giovanni Franzoni entra em cena como um símbolo contemporâneo: técnico, veloz, resiliente. Seu percurso merece leitura atenta, porque ilumina os mecanismos que transformam um talento regional em uma referência europeia.





















