Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Giovanni Franzoni é, hoje, uma das vozes mais claras da renovação do esqui alpino italiano. A recente conquista da prata olímpica na descida livre — disciplina considerada a “rainha” do alpino — não é apenas um resultado isolado: sintetiza uma trajetória construída entre formação rigorosa, experiência no circuito de base e uma ambição polivalente que o distingue.
Nascido em Manerba del Garda, Franzoni cresceu entre água e montanha, o que explica parte de sua personalidade fora das pistas: amante da música rap/trap, prefere as férias à beira-mar, dedicando-se a kite, surf e wakeboard. Essa combinação de leveza e disciplina parece traduzir-se em sua abordagem do treino — agressiva, mas calculada.
O percurso esportivo de Franzoni mostra uma ascensão metódica. Nos Mondiali juniores conquistou cinco medalhas, entre as quais se destacam o ouro no super-G em Bansko (2021) e as vitórias em descida e combinada em Panorama (2022). Esses resultados demonstraram desde cedo a sua capacidade de rendimento sob pressão e a versatilidade entre as provas rápidas e técnicas.
Após a passagem pelos gatilhos do circuito jovem, veio a experiência no purgatório competitivo da Coppa Europa, que venceu em 2022 — etapa que, historicamente, consolidou muitos dos nomes que hoje dominam a Copa do Mundo. Em 19 de dezembro de 2025 alcançou o primeiro pódio da carreira ao terminar em terceiro no super-G da Val Gardena, sinalizando que sua transição para o alto nível estava completa.
O ápice da temporada chegou nas lendárias pistas de inverno europeias. Em janeiro de 2026, Franzoni assinou duas vitórias marcantes no Circo Branco: triunfou em Wengen no super-G e confirmou a evolução vencendo a descida em Kitzbühel. Foram as primeiras vitórias em Copa do Mundo que o colocaram definitivamente no mapa entre os candidatos às grandes provas.
O resultado olímpico — a prata na descida livre — tem dupla leitura. Por um lado, coroou uma progressão esportiva fiel ao percurso de formação italiano; por outro, ressignifica a presença da Itália nas provas de velocidade, tradicionalmente dominadas por outras escolas alpinas. Para a comunidade técnica, Franzoni representa um equilíbrio entre fome competitiva e polivalência: sabe acelerar sem perder linha, e tem mostrado maturidade tática em percursos que exigem leitura constante do vento, neve e traçado.
Mais do que um campeão em ascensão, Franzoni é um ator numa narrativa maior: a reconfiguração do esqui italiano no século XXI, que mistura tradição, investimento em base e a busca por ateltas que sejam símbolos culturais além do resultado. Seu gosto musical e o apego ao mar reforçam uma imagem moderna, conectada com uma geração que vive o esporte como identidade.
Olhar para Franzoni hoje é também projetar desafios: manter a consistência física e técnica, gerir expectativas e preservar a roda de suporte que o tirou das pistas de base até o pódio olímpico. Se a prata em descida livre é um marco, a pergunta que fica é se este jovem talento converterá regularidade em domínio — e, com isso, se tornará uma referência duradoura para as próximas gerações do esqui italiano.
Giovanni Franzoni não é apenas um resultado; é um sintoma do que o esporte italiano está reconstruindo: estruturas, identidade e ambição.






















