Por Otávio Marchesini — A história do futebol italiano volta a encontrar-se com suas ramificações além-fronteiras. Gianfilippo Materazzi, neto do herói da conquista de 2006, Marco Materazzi, confirmou a escolha de representar a Sérvia Under 17, abrindo mais um capítulo na trajetória de jovens com dupla nacionalidade que optam por seleções estrangeiras.
Filho do procurador esportivo Matteo — irmão do ex-zagueiro que ficou marcado pelos lances decisivos na final de 2006 — Gianfilippo nasceu em 2009 e atua como atacante nas categorias de base da Lazio. A convocação para o jogo contra a Eslovênia foi recebida com orgulho familiar: segundo comunicado da federação sérvia, “a primeira convocação para qualquer jovem é um passo importante e uma responsabilidade; para a família Materazzi, traz fortes emoções e o desejo de confirmar em campo o amor pelas origens sérvias”.
O caso de Gianfilippo Materazzi insere-se numa tendência mais ampla: não se trata apenas de filhos ou netos de ídolos, mas de uma geração marcada por identidades híbridas e oportunidades diversas. Lembram-se, por exemplo, de Louis Thomas Buffon, filho de Gigi e Alena Šeredová, que já estreou pela República Tcheca Under 19 e joga no Pisa; ele optou pelo país materno sem qualquer animosidade pública em relação ao pai. Ou ainda Luciano Valente, revelado no Feyenoord, que em novembro estreou pela Holanda, país da mãe; e Nicolò Tresoldi, atacante nascido em Cagliari (2004), filho do ex-jogador Emanuele Tresoldi, que se naturalizou na Alemanha após a família se mudar para Hannover em 2017 e hoje veste as cores dos Sub-21 germânicos.
Do ponto de vista institucional, esses movimentos apontam para duas questões complementares. A primeira é demográfica e cultural: a Itália contemporânea é um terreno de migrações internas e externas, casamentos transnacionais e trajetórias que diluem o que antes se entendia por “ligação exclusiva” a um país. A segunda é esportiva e organizacional: federações e estruturas formativas disputam talentos que, antes, adotavam uma única via de progressão nacional. Quando jovens promissores decidem por outra bandeira, não é raro que o critério decisivo seja uma combinação de afetos pessoais, oportunidade de visibilidade internacional e vias de acesso mais claras ao escalão superior.
Ao analisar o caso de Gianfilippo, é preciso evitar narrativas simplistas de “fuga” ou de traição: muitas escolhas são pragmáticas e íntimas. Ainda assim, existe um imperativo para que a Federação Italiana e os clubes repensem como manter vínculos afetivos e profissionais com atletas que, por nascimento ou ascensão, se encontram entre duas (ou mais) pátrias possíveis.
Para a Sérvia, histórias como a de Materazzi carregam um simbolismo evidente: a camisa nacional continua a ser um instrumento de afirmação identitária, capaz de reunir raízes dispersas. Para a Itália, ficam o desafio e a oportunidade — repensar retórica, políticas de integração e caminhos de desenvolvimento que convençam jovens talentos a compor o futuro da Azzurra.
Em tempo: a convocação de Gianfilippo Materazzi é mais um lembrete de que o mapa do talento mudou. Estádios, academias e federações disputam não apenas a técnica e a tática, mas também afetos e narrativas que definem a pertença no futebol moderno.
27 de fevereiro de 2026 — Espresso Italia





















