Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — No silêncio branco do Planalto de Asiago, a neve faz o papel de testemunha de uma vida longa e inteira. Ali mora Giacomo Mosele, conhecido por todos como el Barba, centenário que mantém vivas as lembranças da era em que o esqui nórdico italiano ainda se forjava com mãos rudes e espírito comunitário. Faltam poucos meses para completar 101 invernos — 30 de julho será a data — e com ela se confirma um dado simbólico: é o mais velho esquiador italiano a ter participado de Jogos Olímpicos.
A história competitiva de Mosele tem um episódio central em Oslo, 1952. “Fiz os 18 quilômetros de fundo e terminei em 34º”, conta com a voz firme de quem revive a prova sem afeto pela glória fácil. Não se tratava de técnica refinada, diz ele: “Quando a pista subia e era preciso empurrar com os braços, eu subia como um camoscio” — imagem que remete às raízes rurais e ao vigor de um homem de 1,90 m forjado como lenhador no interior da província.
O percurso até as Olimpíadas nasceu quase por acaso. Era fim dos anos 1940 quando um amigo, Gastone Dalle Ave — “el Menta” — o convenceu a competir em Campolongo. Mosele foi com equipamento improvisado: esquis de frassino feitos pelo pai, botas apertadas emprestadas e um maglione de lã no lugar da tuta de corrida. Entre adversários vindos de competições mundiais, surpreendeu: “Aristide Compagnoni só me passou no falsopiano e me cumprimentou na chegada”. A partir dali, a carreira ganhou corpo, incluindo passagens por estruturas oficiais como as Fiamme Gialle.
Mas a narrativa de Mosele é também a de interrupções e agruras administrativas. A chamada “beffa” de Cortina 1956 permanece como uma ferida simbólica. Convocado para os Jogos em casa, acabou excluído por uma sequência de decisões e vaidades — “tutta colpa del comandante che volle la mia stanza”, lembra, apontando a intervenção de autoridade que reivindicou sua acomodação e que, nos bastidores, teria comprometido sua presença na delegação. Para um atleta cujo processo formativo foi menos técnico e mais social, essa perda teve contornos de injustiça coletiva.
Fora do esporte, Mosele é um relicário de hábitos tradicionais. Come polenta, caminha diariamente e confessa nunca ter possuído um celular ou mesmo um carteira: traços de uma vida que privilegiou ritmo natural e posse mínima. Foi lenhador e caçador; abandonou a caça quando um filhote fez o que nenhuma técnica de competição conseguira — despertou-lhe compaixão suficiente para mudar de rota.
As 27 medalhas de ouro que suas mãos apertaram em momentos de glória regional não surgem como vaidade, mas como registro de uma época em que o tecido social do esporte se costurava entre clubes locais, amizades e solidariedade na montanha. Hoje, as pernas que outrora empurraram e desceram com agressividade ao vento descansam — ainda que as caminhadas diárias confirmem que a presença física persiste como rito.
Como relato histórico e humano, a trajetória de Giacomo Mosele diz tanto sobre o esqui como prática atlética quanto sobre o sistema que o rodeou: federações, corporações esportivas, pequenos empreendimentos técnicos (os esquis de frassino do pai) e a política de bastidores capaz de alterar destinos. Em tempos de profissionalização extrema, sua história lembra que o esporte também foi — e muitas vezes continua sendo — artefato de identidades locais. Ele não busca mitos; oferece memórias, com a clareza serena de quem viveu para que elas existissem.
Assistido pelas filhas Daniela e Michela, el Barba conserva, acima de tudo, uma narrativa que vale como documento: a de um homem que atravessou o século com as botas enlameadas, que sorveu a polenta e devolveu às pistas um pouco do que recebeu. Para quem observa o esporte como fenômeno social, o legado de Mosele não está no pódio isolado, mas na relação entre terra, gente e o gesto humilde de atravessar a neve.




















