Tommaso Giacomel parecia escrever mais um capítulo de autoridade na prova: dois poligoni perfeitos, dez alvos em dez, passagem em primeiro ao quinto quilômetro da Mass Start de biathlon. Mas, num episódio que mistura drama físico e frustração esportiva, o trentino desacelerou abruptamente no sexto quilômetro, abandonou o grupo de ponta, reduzindo o ritmo a quase caminhar, e acabou se agachando à beira da pista ao lado de seus técnicos antes de se retirar.
A saída de cena de Giacomel — que vinha de uma temporada de alto nível, com seis vitórias na Copa do Mundo — fecha de maneira amargurada sua participação nos Jogos. Em meio a exames e incertezas, circulou a hipótese de que a violência da crise poderia estar relacionada à milza, embora ainda não haja diagnóstico definitivo. O atleta publicou no Instagram uma mensagem direta: está “bem”, na medida do possível, e descreveu a sensação como a pior que já teve, com dificuldade para respirar e mover-se. “Fermarsi è devastante… Non mi arrenderò mai. Quattro anni volano veloci e ci riproverò in Francia”, escreveu o biatleta — a tradução livre reforça a promessa de retorno e a dimensão temporal do projeto olímpico.
No balanço definitivo da prova, a Italia teve um dia de resultados discretos: Lukas Hofer, em sua última corrida, terminou em 25º, enquanto Nicola Romanin fechou em 28º, penúltimo. A vitória ficou com o norueguês Johannes Dale-Skjevdal, que superou Sturla Holm Laegreid — para quem foi a quarta medalha em quatro provas — e o francês Quentin Fillon-Maillet, que mais uma vez levou a França ao pódio.
Do ponto de vista esportivo e simbólico, o episódio é mais que a súbita perda de um favorito: expõe a fragilidade do corpo humano mesmo diante do repertório técnico e psicológico mais sólido. Giacomel fez tudo corretamente no tiro, mostrou combatividade no início da prova, mas foi vencido por uma crise fisiológica cuja origem e gravidade serão avaliadas. Para quem observa o esporte como fenômeno social, trata-se de um lembrete do que está em jogo para atletas que assumem encargos de representação regional e nacional — a expectativa pública pesa tanto quanto o esforço físico.
O programa dos Jogos ainda reserva a Mass Start feminina no sábado, com a presença de Lisa Vittozzi e Dorothea Wierer, que disputam sua despedida em pista. A Itália, que acompanhou com ansiedade a queda de um de seus nomes mais em evidência, aguarda agora os laudos médicos e a possível narrativa de recuperação que poderá surgir nas próximas semanas.
Em termos de memória esportiva, a imagem do campeão a agachar-se à margem da pista ficará para além do resultado: é um registro sobre como derrotas e incidentes médicos entram na construção de uma carreira e na relação entre atletas, federações e comunidades locais. Giacomel sai dos Jogos com a prata da estafeta mista no bolso e muitas perguntas no ar — e, segundo suas palavras, com a determinação de tentar novamente.






















