Por Chiara Lombardi — O cantor Ghali subiu ao palco da cerimônia de inauguração dos Jogos Milão-Cortina 2026, mas, para parte do público e sobretudo para quem assistia pela televisão, pareceu invisível. Misturado entre os bailarinos, sem tomadas em primeiro plano e — segundo críticas imediatas — sem menção do narrador: o rapper que deveria ter sido protagonista virou figura quase anônima na transmissão.
No dia seguinte, Ghali usou o Instagram para descrever o que sentiu: “Pace? Armonia? Umanità? Non ho sentito niente di tutto questo” — frase que ele mesmo citou ao remeter à poesia Promemoria, de Gianni Rodari, trazida por ele ao palco. Em sua mensagem, o artista sublinhou que, apesar de não ter percebido paz nem harmonia no ambiente institucional, reconheceu a humanidade por trás das mensagens recebidas do público: “As pessoas são o que realmente importa”.
O clima havia sido tenso nos dias anteriores. Parte da opinião pública e de comentaristas questionou a escolha de um artista livre e muitas vezes contundente — que, por exemplo, em Sanremo fez um apelo contra o que chamou de “Stop al genocidio” — para um palco oficial tão carregado simbolicamente. Além disso, Ghali é italiano de origem tunisina, um dado que, para alguns críticos, segue operando como estigma em debates identitários e midiáticos.
Antes da cerimônia, o próprio cantor publicou uma carta nas redes, declarando que sentiu limitações em sua liberdade de participação: “Sei quando una voce viene accettata. So quando viene corretta. So quando diventa di troppo.” Ele reclamou, entre outros pontos, de não ter podido incluir o árabe entre as línguas do seu recitado — onde estavam previstas italiano, francês e inglês — e de não ter sido o intérprete do Hino Nacional, cujo momento acabou sendo entregue a Laura Pausini.
O episódio ganhou contornos mais amplos com a narração ao vivo do diretor da Rai Sport, Paolo Petrecca, que causou desconforto ao cometer lapsos e, sobretudo, ao não citar Ghali quando nomeou outros protagonistas da noite. Várias vozes acusaram a Rai de censura implícita — chegando a aflorar o rótulo de “TeleMeloni” para a emissora — e a deputada do PD Laura Boldrini chegou a classificar o caso como “uma verdadeira censura” e uma “vergonha indigna do serviço público”.
Mais do que um episódio televisivo, o caso funciona como um espelho do nosso tempo: a cena pública e institucional torna-se um set onde se encenam memórias coletivas, disputas sobre pertencimento e decisões simbólicas sobre língua e visibilidade. A invisibilidade sofrida por Ghali na transmissão não é apenas um erro técnico; é também um sinal de quem é considerado pleno representante do imaginário nacional em momentos de grande publicidade.
É preciso perguntar: o que nos diz que uma voz foi silenciada em plena celebração de unidade? Ao recorrer a Rodari e ao conceito de Promemoria, Ghali ofereceu um refrão ético — “há coisas que nunca se devem fazer” — que funciona como um reframe da realidade e um convite para não aceitar narrativas fáceis. No cenário de transformação que vivemos, esse episódio revela o roteiro oculto da sociedade e como o entretenimento continua sendo, inevitavelmente, o palco das nossas tensões políticas e identitárias.
Se a cerimônia queria ser uma imagem de paz e harmonia, ela expôs também fraturas: entre quem canta e quem é ouvido, entre o palco e a cabine de transmissão. E, como em um bom filme, as omissões às vezes dizem mais do que as palavras pronunciadas.






















