Por Chiara Lombardi — A participação de Ghali na cerimônia de abertura de Milano‑Cortina voltou ao foco após um novo post do artista no Instagram, que se tornou um espelho do nosso tempo: ao mesmo tempo palco e reflexo de tensões culturais e identitárias. Em suas palavras, paz, harmonia e humanidade não foram sentidas durante o evento, mas reapareceram nas mensagens de apoio que recebeu do público.
No post, Ghali reclama de ter sido tratado com omissão: segundo ele, foi “censurado” nas transmissões, nunca nomeado pelos comentaristas e quase nunca enquadrado de perto enquanto recitava a poesia de Gianni Rodari, o poema Promemoria, dedicado à paz. Essa percepção de apagamento — a sensação de estar presente mas invisível — ressoa como um pequeno reframe da memória coletiva: quando partes da narrativa são silenciadas, o público é convidado a reescrever o que deveria ter acontecido.
Antes da cerimônia, o rapper já havia publicado uma carta aberta denunciando limitações em sua participação no evento: alegou ter sido excluído de momentos oficiais, como a entoação do hino italiano, e afirmou que lhe foi negada a possibilidade de declamar a poesia também em língua árabe. O protocolo olímpico, é verdade, prevê línguas oficiais além da do país anfitrião — tipicamente inglês e francês — mas a recusa de permitir o árabe toca numa camada simbólica mais profunda, relacionada à representação e à pluralidade cultural num evento que se proclama universal.
Ao mesmo tempo, Ghali ressaltou que o que importa são as pessoas: “As pessoas são aquilo que conta de verdade e, num momento de tanto ódio, por favor, não joguem o jogo deles e respondam sempre como gostaríamos que o mundo fosse”, escreveu. Ele finalizou citando o verso de Rodari: “Ci sono cose da non fare mai” — “Há coisas que nunca se deve fazer” — evocando uma ética mínima que atravessa tanto a poesia quanto o cerimonial público.
Há uma dimensão cultural nela que merece atenção: a cerimônia olímpica é um roteiro simbólico cuidadosamente encenado, e a forma como se monta a câmera, se nomeia uma voz ou se seleciona uma língua diz muito sobre o cenário de transformação que queremos construir. A reação nas redes, as mensagens de apoio recebidas por Ghali e o debate subsequente compõem a semiótica do viral — o modo como um incidente local se torna metáfora para questões maiores, como inclusão e memória coletiva.
Além do episódio na cerimônia, o artista lançou recentemente um novo single, lembrando que, em paralelo à polêmica, seu trabalho segue em diálogo com o público. A situação coloca em evidência uma pergunta que atravessa o entretenimento e a política cultural: quem decide quais vozes ocupam o centro do ritual público? E o que perdemos quando essas vozes são aviltadas ou silenciadas?
Como uma observadora que gosta de pensar o entretenimento como documento de época, vejo o caso como um pequeno lampejo do roteiro oculto da sociedade — um convite para não aceitar enquadramentos prontos, para insistir na pluralidade de línguas e afetos. No fim, fica a linha de Rodari para nos lembrar de uma norma ética simples e poderosa: “Ci sono cose da non fare mai”. Em tempos de espetáculo, que esse verso nos recorde o que a memória pública não deveria jamais apagar.






















