Por Otávio Marchesini — A história que emergiu das investigações policiais britânicas mostra não apenas uma fraude comercial de grande escala, mas também as fragilidades institucionais de um mercado que conjuga elevada regulamentação e escassez de oferta. Entre 2019 e 2023, Jose Alejandro Zamora Yrala, um sul‑americano com passado como dj, transformou a empresa Aog Technics Ltd numa estrutura aparente de comércio global de peças de reposição aeronáuticas — embora grande parte do que aparecia ao público fosse falso.
Na segunda metade de 2018, na casa onde vivia nos arredores de Londres, Zamora Yrala começou a pesquisar como alterar PDFs sem deixar rastros. Alguns dias antes, um contato ligado à manutenção de uma companhia aérea lhe havia enviado 140 documentos descritos como certificados de aeronavegabilidade — papéis fundamentais que atestam a origem, a vida operacional (inspeções e revisões) e a segurança de cada componente instalado em um avião.
Em questão de meses, usando técnicas digitais e recursos externos, ele passou a manipular esses documentos. No LinkedIn surgiram dezenas de perfis supostamente empregados pela Aog Technics, muitos com cargos gerenciais. O site da empresa a anunciava como um “fornecedor líder global de suporte aeronáutico”, com alegadas autorizações da Federal Aviation Administration (FAA) e depósitos em Londres, Frankfurt, Miami e Singapura. O resultado prático dessa imagem construída foi um crescimento financeiro abrupto: de um lucro declarado de 25.140 euros em 2019 para cerca de 2,5 milhões nos doze meses até fevereiro de 2020 e 2,7 milhões no fechamento de fevereiro de 2023.
A investigação revelou, contudo, que muitos desses elementos eram artificiais. As fotos dos funcionários eram imagens retiradas de bancos de fotos; os “colaboradores” em suas plataformas digitais não existiam. Os únicos funcionários efetivos, segundo os autos, eram o próprio Zamora Yrala, sua então-mulher, o então‑cognato e uma cuidadora. Os documentos que deveriam garantir a rastreabilidade e a segurança das peças foram sistematicamente retocados, inicialmente a partir de PDFs verdadeiros e depois com a criação de certificados falsos por um designer gráfico contratado.
Entre janeiro de 2019 e julho de 2023, o então broker aeronautico vendeu aproximadamente 60 mil peças destinadas ao motor CFM‑56, um dos motores mais difundidos no mercado de aviação comercial. A dimensão das transações e a aparente sofisticação do esquema apontam para um problema que extrapola o caso individual: quando a confiança nos processos de certificação é corroída, a segurança operacional e a reputação do setor ficam em risco.
Em dezembro de 2023 a polícia britânica prendeu Zamora Yrala em sua residência em Virginia Water, próximo a Heathrow. Foram apreendidos computadores e telefones; subsequentemente, a justiça o condenou a 4 anos e 8 meses de prisão por fraude comercial. A sentença representa uma resposta penal imediata, mas levanta questões sobre as práticas de due diligence nas cadeias de suprimento e sobre como operadores e reguladores identificam documentos e fornecedores fraudulentos antes que peças potencialmente inseguras cheguem a aeronaves em operação.
Como analista atento às intersecções entre esporte, transporte e memória coletiva, vejo nesse episódio uma narrativa que se replica em outros setores: a pressão por reposição rápida, os gargalos pós‑pandemia e a profissionalização das fraudes digitais criaram terreno fértil para operadores oportunistas. O setor aéreo, que opera sob rigorosos padrões técnicos, precisa hoje mais do que nunca de mecanismos automatizados e cooperativos de verificação — e de uma cultura que privilegie a rastreabilidade acima da velocidade de entrega.
O caso Aog Technics e de Jose Alejandro Zamora Yrala não é apenas uma história de estelionato bem arquitetado; é um alerta sobre como a credibilidade institucional pode ser usurpada com relativa facilidade, e sobre a necessidade de respostas sistêmicas que protejam passageiros, empresas e a própria confiabilidade da aviação comercial.
Palavras‑chave: fraude, peças de reposição, CFM‑56, Aog Technics, certificados de aeronavegabilidade, Jose Alejandro Zamora Yrala.






















