Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma sequência que reescreve capítulos da memória esportiva italiana, Francesca Lollobrigida confirmou nesta etapa de Milano‑Cortina 2026 o papel de protagonista da pista longa. Depois do triunfo nos 3000 m — celebrado no dia de seu 35º aniversário com o recorde olímpico de 3:54.28 — a patinadora italiana voltou a dominar ao conquistar o ouro nos 5000 metros, com o tempo de 6:46.17.
O resultado consolidou uma sequência excepcional: trata‑se do segundo ouro pessoal da atleta nestes Jogos e do sexto ouro da delegação italiana na competição. No plano individual, Lollobrigida alcança o quarto pódio olímpico da carreira e iguala, em prestígio, nomes que compõem a galeria dos grandes do esporte nacional — de Deborah Compagnoni a Federica Brignone, passando por figuras do esqui nordico como Wierer, Piller Cottrer e Vanzetta.
Sportivamente, a prova dos 5000 m foi um exercício de leitura e execução. Pressionada pela referência da neerlandesa Marijn Conijn — que havia deixado um excelente tempo como parâmetro — Lollobrigida montou uma estratégia de rara precisão: partida agressiva, controle cirúrgico na fase intermediária e uma progressão final que anulou qualquer dúvida. “Nos últimos dois giros dei 200%”, explicou a atleta, sintetizando a mistura de força física e serenidade tática que a levou ao triunfo.
Na análise que prefiro, o mérito de Lollobrigida não é apenas cronométrico. É político e cultural: uma atleta que soube transformar momentos difíceis da temporada em aprendizagem, tirando energia do entorno — entre elas a vitória de Federica Brignone, que “me deu a carga” — e do calor do público. Ela mesma reconheceu o papel da torcida: “No plano que combinei com meus treinadores queria o apoio do público e o usei plenamente”.
Ao fim da prova, a vitória ganhou também dimensão íntima. Lollobrigida telefonou para o filho Tommaso e para a mãe, afirmando ter cumprido uma promessa pessoal — não a do ouro, mas a de voltar a se divertir, recuperar o sorriso e livrar‑se da pressão paralisante. O menino, ausente nas arquibancadas por engrossar uma festa de Carnaval vestido de bombeiro, foi lembrado com o afeto da campeã: “Foi melhor assim, espero que volte para a mass start”.
Essa prova abre ainda outra página: a atleta já mira a mass start, prova em que a imprevisibilidade e a coletividade reinam. “É um terno a lotto”, disse com a cautela de quem conhece a vara curta do acaso em competições de grupo. Mas, acrescentou, terá o público ao seu lado e dará o máximo.
Milano‑Cortina coroou, por ora, sua rainha azzurra. Mais que estatística, o feito de Francesca Lollobrigida é a confirmação de uma trajetória que atravessa gerações: um modo de pensar o esporte como herança, como trabalho de base e como agência identitária para uma nação que, nas pistas geladas, encontra uma faceta menos óbvia de si mesma. Se os resultados são históricos, a narrativa que os sustenta é ainda mais reveladora — da capacidade de resistência, reinvenção e diálogo entre atletas, treinadores e público.
Seguiremos atentos: a mass start será um capítulo que dirá muito sobre a dimensão coletiva dessa Itália nas pistas.






















