Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A conquista do ouro olímpico nos 3.000 metros por Francesca Lollobrigida em Milano Cortina 2026 não é apenas o ponto alto de uma carreira: é a síntese de uma trajetória que atravessa gerações, territórios e modalidades. Filha de um ambiente esportivo e ligada a uma linhagem cultural visível — é sobrinha-neta da atriz Gina Lollobrigida — Francesca traduz, em cada volta, a combinação entre herança e modernização do esporte italiano.
Formada na tradição das rodas, Francesca começou como patinadora a roletes, modalidade em que acumulou nove títulos mundiais. Calçou os primeiros patins aos 14 meses e, com base nessa infância movida, fez a transição para o gelo após as Olimpíadas de Turim 2006 com um objetivo claro: competir nos Jogos de Inverno. A mudança não foi apenas técnica, mas estratégica; acompanhar a migração do talento das pistas de asfalto para as pistas de gelo ilustra uma via que vários atletas italianos trilharam nas últimas décadas.
O percurso competitivo confirma seu preparo: em 2018, nos Europeus de Kolomna, ela subiu ao lugar mais alto no mass start; em Pechino 2022 conquistou prata nos 3.000 metros e bronze no mass start; e um ano antes dos Jogos em casa, assegurou o ouro nos Mundiais de Hamar em 2025. Ainda assim, faltava o que muitos consideram a peça final do quebra-cabeça — o ouro olímpico — alcançado agora em solo italiano.
Parte dessa consistência vem das raízes. O pai, Maurizio, foi seu primeiro ponto de referência: atleta com várias medalhas na carreira e detentor de um recorde nos 50 quilômetros, ele transmitiu não só técnica, mas uma relação com o esforço de longa duração. Esse fio familiar liga-se também ao cotidiano profissional: Francesca é casada com Matteo Angeletti, também patinador e preparador físico, com quem partilha a rotina de treinamentos e a educação do filho, Tommaso.
Acadêmica além do esporte, Francesca detém uma laurea magistrale em Ciências do Movimento, um dado que revela a atenção do atleta contemporâneo à ciência aplicada: controle de carga, prevenção de lesões e adaptação tática. Hoje, dividindo sua temporada entre a Itália e os Países Baixos — onde treina cerca de seis meses por ano —, ela personifica a crescente internacionalização da preparação italiana, que busca nos centros nórdicos e neerlandeses métodos de excelência para patinação de velocidade.
Geografia e memória também têm papel: alternando entre Roma e Baselga di Pinè (Trentino) nos primeiros anos no gelo, Francesca manteve um pé nas estruturas locais e outro nas redes de alta performance europeia. Essa dialética — entre a federação, clubes regionais e centros estrangeiros — é parte do processo que reconfigura o esporte italiano contemporâneo, em que histórico e inovação convivem.
Milano Cortina 2026 oferece, portanto, mais do que uma medalha: entrega um parêntese simbólico sobre identidade esportiva. O ouro de Francesca Lollobrigida é o resultado de uma biografia construída entre rodas e lâminas, entre a tradição familiar e a profissionalização globalizada do treinamento. Para o observador atento, trata-se de uma vitória que fala tanto ao público quanto às estruturas que fazem o esporte possível — clubes, família, ciência e circuito internacional.
Assinatura: Otávio Marchesini — repórter de esportes, Espresso Italia.





















