Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma tarde que condensou história, drama e reinterpretações da memória esportiva italiana, a equipe feminina de revezamento do short track conquistou a medalha de prata nos 3.000 metros em Milano-Cortina 2026. As azzurre cederam apenas à Coreia do Sul, em uma prova decidida por frações de segundo: ouro sul-coreano em 4:04.014, prata da Itália em 4:04.107 e bronze do Canadá em 4:04.314.
O resultado, por si só, já teria valor esportivo declarado; ganhou dimensão simbólica quando a capitã da equipe, Arianna Fontana, alcançou a 14ª medalha em Jogos Olímpicos, superando o recorde de Edoardo Mangiarotti e assumindo o posto de maior medalhista olímpica italiana da história. A cena, testemunhada pela presidente do Conselho, Giorgia Meloni, presente nas tribunas, expôs o esporte como território de memória coletiva e reescritura de referências nacionais.
Não foi uma prova linear para as italianas. As italianas oscilaram na prova, passando boa parte do tempo na quarta posição antes de aproveitar um incidente com a Holanda — que caiu — e uma leitura tática precisa para recuperar terreno. Em determinado momento, a equipe italiana chegou a liderar a prova depois que o Canadá perdeu ritmo, mas não resistiu ao retorno fulminante da Coreia do Sul, que consumou a ultrapassagem rumo ao ouro.
O valor da prata ultrapassa o metal. Primeiro, porque confirma a consistência do projeto do short track feminino italiano, capaz de reagir a imprevistos e capitalizar erros do rival. Segundo, porque entrega a Arianna Fontana um legado singular: ultrapassar Mangiarotti, símbolo de uma Itália que brilhava nas pistas de esgrima do pós-guerra, significa atualizar a narrativa sobre onde hoje residem as maiores expressões esportivas do país.
Fontana, ao longo de uma carreira que atravessou quase duas décadas, traduz uma forma de estar no esporte que mistura longevidade, adaptabilidade técnica e representatividade. A marca de 14 medalhas não é apenas um número; é o reflexo de uma trajetória construída em arenas europeias e mundiais, e agora selada sob os holofotes de uns Jogos disputados em solo italiano.
Para a delegação de Milano-Cortina 2026, trata-se da quinta medalha conquistada nesta edição, um sinal de que o projeto nacional encontra ecos no investimento esportivo e na capacidade de formar equipes competitivas. Para a torcida e para a história, é o instante em que um nome feminino reescreve os livros de recordes do esporte italiano.
Mais do que celebrar o pódio, cabe reconhecer a sutileza tática da prova: um revezamento que oscilou entre cautela e ousadia, que soube aguardar a oportunidade e, no momento certo, capitalizar. A prata confirma maturidade e aponta para a continuidade de um ciclo que pode produzir ainda mais capítulos relevantes.
Em um país onde estádios e pistas são, há muito, palcos de identidade regional e nacional, a imagem de Arianna Fontana no pódio — a maior medalhista olímpica italiana — será, inevitavelmente, incorporada ao repertório simbólico do esporte italiano contemporâneo.






















