Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Cortina d’Ampezzo — Em um cenário que mistura tradição alpina e espetáculo global, a presença de ícones culturais internacionais nas Olimpíadas devolve à cidade um papel de palco simbólico. Depois de Snoop Dogg, que já havia transformado sua crônica em fenômeno viral, chegou a vez de Flavor Flav marcar presença em Cortina — e a sua passagem diz muito mais sobre como o evento olímpico se articula com memórias geracionais e consumo de celebração.
Nascido em 1959 e reconhecido como um dos fundadores do grupo Public Enemy, Flavor Flav aportou nas arquibancadas da prova de skeleton ostentando o seu inseparável relógio king size e uma jaqueta com a bandeira norte-americana, imagem que remete àquela estética de cena urbana dos anos 1980-90 e à visibilidade conquistada pelo hip hop nas plataformas culturais globais.
Mais do que um rosto ilustre aplaudindo o Team USA, a sua presença foi de imersão: vídeos e reels mostraram o artista caminhando pelo Corso Italia, trocando selfies com fãs surpresos e trocando cumprimentos com personalidades locais e internacionais — entre elas o ator Stanley Tucci, que permanece um nome de destaque na interseção entre cinema e moda, e o quarteto austríaco Tyrol Music Project, com quem posou trajando trajes tradicionais tiroleses.
Esse contraste — rapper de periferia nova-iorquina em meio a chalés alpinos e trajes folclóricos — é sintomático de como as Olimpíadas contemporâneas se tornaram palimpsestos culturais: representam desempenho esportivo, celebração turística e um mercado simbólico onde nostalgia e espetáculo se encontram. Não é por acaso que, além das conversas sobre medalhas e performances, circulam tendências folclóricas do evento: a chamada pin mania transformou a troca e a colecionagem de pins em atividade coletiva, uma espécie de ritual lúdico que atravessou gerações e, curiosamente, conquistou até quem, nas décadas anteriores, encarnou a figura do anti-sistema.
As imagens de Flavor Flav vasculhando barracas em busca de pins projetam uma leitura interessante: ícones que outrora sintetizavam contestação adotam, voluntariamente ou não, elementos da celebração institucional. A aproximação não anula o legado crítico — basta lembrar do papel político-cultural do Public Enemy e de canções como “Fight the Power”, imortalizada pelo cinema de Spike Lee — mas evidencia a capacidade do espetáculo olímpico de absorver narrativas e transformá-las em momentos compartilháveis.
Se para os atletas a história será medida em tempos e pódios, para a plateia e para a cidade as Olimpíadas de Cortina ficarão marcadas também por encontros inesperados: rappers de Long Island trocando pins, selfies ao lado de estrelas do cinema e a pista de skeleton como cenário de uma micro-história cultural que diz muito sobre como o esporte se comunica com a memória coletiva.
Em uma edição que já celebra a aurora de nomes como Federica Brignone no gelo e uma coleção de medalhas italianas, recorde-se que a narrativa olímpica se escreve também nas ruas, nos gestos e nas pequenas coleções — e, às vezes, nas voltas de um relógio que pesa tanto quanto a presença de quem o usa.






















