Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A FIFA anunciou uma nova parceria estratégica com o controverso Board of Peace, organização vinculada a Donald Trump, com o objetivo declarado de reconstruir a infraestrutura esportiva na Faixa de Gaza. O acordo prevê um investimento inicial de US$ 75 milhões — parte financiada pela própria FIFA — destinado à construção de instalações que incluem 50 mini-campos junto a escolas e áreas residenciais, campos oficiais em diversos distritos, uma FIFA Academy e um estádio de 20.000 lugares.
O documento, assinado por Gianni Infantino e representantes do Board of Peace, entre eles Yakir Gabay, bem como pelo representante especial para Gaza, S.E. Nickolay Mladenov, e o comissário chefe para a administração de Gaza, Dr. Ali Shaath, estrutura um plano de longo prazo para revitalizar um ecossistema futebolístico local. Segundo a FIFA, a iniciativa busca “gerar postos de trabalho, fortalecer a coesão social e apoiar a revitalização econômica a longo prazo”.
O anúncio, porém, ocorre em um contexto institucional sensível: Infantino assinou o acordo enquanto enfrenta uma apuração interna da própria FIFA relacionada à concessão a Donald Trump de um novo “prêmio pela Paz”. A sobreposição entre diplomacia esportiva e trajetórias políticas torna a operação simbólica tanto quanto técnica, ampliando o debate sobre as linhas que separam filantropia, soft power e interesses geopolíticos.
Não é a primeira vez que o caminho entre a FIFA e Trump se cruza. Em novembro, Infantino esteve no Salão Oval levando a Taça do Mundo a Trump — um gesto com forte valor simbólico, em ano que verá a Copa disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. A sede nova-iorquina da entidade também está localizada na Trump Tower, na Fifth Avenue, um detalhe que reforça a proximidade física e, para alguns críticos, a convergência institucional.
Historicamente, projetos de reconstrução com base esportiva carregam potencial de impacto social real: campos oferecem espaços de encontro, formação e respiro para comunidades marcadas por conflito. Mas há riscos evidentes quando iniciativas são articuladas por estruturas recém-criadas com perfis político-comerciais. A transformação do futebol em instrumento de estabilização exige mais do que gramados e arquibancadas: reclama planejamento integrado, governança local e salvaguardas contra instrumentalizações políticas.
Além do financiamento anunciado, o memorando prevê a criação de uma rede formativa — a FIFA Academy — que deveria atuar na identificação e desenvolvimento de talentos, além de formar técnicos e gestores locais. Para que o projeto renda efeitos sustentáveis, será preciso que a comunidade palestina participe efetivamente da governança e que haja mecanismos claros de transparência sobre recursos e cronogramas.
Enquanto entra em cena com promessas e cifras, a FIFA terá de responder a duas demandas: converter intenção em impacto concreto dentro de um território em crises repetidas e zelar pela sua própria credibilidade institucional, em tempos nos quais relações entre futebol, poder e diplomacia são escrutinadas como nunca. A iniciativa em Gaza promete ser, portanto, tanto um teste técnico de reconstrução quanto um ensaio sobre os limites éticos do futebol como ferramenta de política internacional.
Data da nota original: 20 de fevereiro de 2026






















