Ferrari apresentou em Modena a nova livrea da 499P que disputará o Mundial de Endurance em 2026. O lançamento, realizado no Museo Enzo Ferrari, foi um gesto deliberado de memória e continuidade: a equipe oficial Ferrari – AF Corse decidiu estampar na carroceria os sinais de uma temporada que entrou para a história.
O projeto visual nasce diretamente da necessidade de traduzir em aparência a temporada de 2025, quando o Cavallino conquistou os títulos mundiais de construtores e pilotos na categoria Hypercar, após um jejum de 53 anos, além de assinar a vitória na 24 Horas de Le Mans pelo segundo ano consecutivo. A nova pintura celebra esses êxitos com insígnias bem visíveis: louros gravados sobre os arcos dos para-lamas dianteiros e uma sequência de honrarias abaixo do Scudetto, onde o Cavallino Rampante aparece em referência às conquistas das duas Sport Prototype.
O centro de estilo de Maranello, sob a direção de Flavio Manzoni, manteve o tradicional Rosso Scuderia como cor dominante, mas com mudança de textura — agora brilhante, em sintonia com o acabamento da monoposto SF-26 de Fórmula 1. Pequenos traços em Giallo Modena pontuam alguns volumes do cockpit e linhas da carroceria, criando contraste e sublinhando elementos formais. O resultado é uma leitura contemporânea que remete, em fidelidade cromática, à icônica 312 P dos anos 1970 — um aceno à linhagem de endurance que a marca pretende reivindicar.
No plano esportivo, a estrutura manteve os pilotos que levaram a 499P ao topo. A unidade número 50 seguirá com Antonio Fuoco, Miguel Molina e Nicklas Nielsen; a 51 terá Alessandro Pier Guidi, James Calado e Antonio Giovinazzi. Aos campeões de pilotos de 2025, a Ferrari acrescentou um detalhe simbólico: os laureles da FIA estampados nas pinas superiores das portas, um reconhecimento visual da conquista individual que se soma ao troféu da marca.
Antonello Coletta, responsável pelo departamento Endurance e Corse Clienti da Ferrari, definiu com clareza o propósito para 2026: “O objetivo é defender a liderança conquistada em 2025“. Coletta reconheceu, porém, que a tarefa será exigente — adversários surgem com evoluções substanciais em suas plataformas — e explicou a opção técnica da casa: “optámos por um desenvolvimento seletivo porque acreditamos que a competitividade da 499P ainda permite lutar no mais alto nível”.
Do ponto de vista técnico, a 499P mantém o conceito de powertrain híbrido que combina um motor térmico V6 biturbo, em posição central-posterior, com uma unidade elétrica. Essa arquitetura, já responsável pelo desempenho vencedor na última temporada, permanece como base para as atualizações que serão implementadas ao longo do ano — uma abordagem de evolução controlada, coerente com a estratégia comunicada por Maranello.
Mais do que um exercício estético, a nova livrea é uma declaração de identidade: a Ferrari escolhe narrar sua atualidade esportiva recorrendo à própria memória — um gesto que, além de exaltar vitórias, procura situar o projeto 499P num continuum histórico. Na temporada que se aproxima, a prova de resistência não será apenas técnica, mas também simbólica: defender o título significa sustentar uma representação da marca no imaginário coletivo do automobilismo mundial.
Em termos práticos, a apresentação em Modena funcionou como ato público e como mensagem política interna ao paddock: a Ferrari chega ao WEC 2026 com clareza de objetivo e prudência técnica, confiando na base que rendeu domínio no ano anterior, mas ciente de que a competição evolui e exige renovação constante.
Otávio Marchesini, repórter de Esportes — Espresso Italia
















