Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em um movimento que reabre debates sobre autoridade, tecnologia e confiança na arbitragem, Federico La Penna, 42 anos, foi designado para apitar o confronto entre Südtirol e Venezia, marcado para 28 de fevereiro. A escolha surpreende especialmente após as críticas que o árbitro romano recebeu por sua atuação no clássico Inter-Juve, que lhe custou um turno de suspensão.
O episódio recente do Südtirol com o Palermo ajuda a contextualizar a sensibilidade ao nome de La Penna. Na última rodada, os biancorossi saíram derrotados — e ressentidos — de Palermo: um pênalti que abriu o placar foi assinalado após interpretação controversa de uma simulação envolvendo o jogador Segre, transformada em penalidade graças à revisão do VAR. Na mesma partida, o árbitro Valerio Crezzini havia inicialmente tomado decisões corretas em campo, mas cedeu à pressão do monitor e depois teve a atuação comprometida, chegando a validar um gol irregular que só foi anulado por intervenção do vídeo, que assinalou falta sobre o goleiro Adamonis.
Esses episódios ilustram a contradição central do momento: a tecnologia criada para reduzir o erro tem, paradoxalmente, ampliado a exposição e a tensão sobre os árbitros. Nesse clima, surpreende que a designação para uma partida sensível nas ambições do Südtirol recaia sobre um juiz que até poucas semanas atrás foi alvo de críticas contundentes — inclusive ameaças — após o polêmico duelo entre Inter e Juventus.
No referido clássico, La Penna foi protagonista de uma “espulsão fantasma” aplicada ao bianconero Kalulu por um suposto falta em Bastoni que não existiu. Ao término do primeiro tempo, o árbitro foi confrontado diretamente pelo treinador juventino Spalletti e por dirigentes como Modesto e Comolli. A repercussão midiática levou a um pronunciamento e a um curto período de afastamento: ao contrário do rumor inicial de um mês, a pausa durou apenas um fim de semana.
Do ponto de vista simbólico, a transferência do palco — do «Derby d’Italia» para o estádio Druso — pode ser lida como um declassamento punitivo. Do ponto de vista prático, levanta-se uma pergunta legítima: um profissional que atravessou críticas tão severas e recebeu até ameaças conseguiu recompor a serenidade necessária para gerir uma partida com implicações importantes para a luta na tabela?
Mais do que julgar intenções, é preciso considerar estruturas. A decisão da AIA revela como as associações de arbitragem tentam balancear disciplina, imagem pública e necessidades das competições — um equilíbrio delicado num tempo em que a opinião pública e a tecnologia dividem, em intensidade inédita, cada lance.
Para o Südtirol, que busca reabilitação depois da derrota em Palermo, a presença de um árbitro cujo currículo recente é marcado por controvérsia adiciona uma camada de complexidade ao confronto com o Venezia. Para o jogo e para a categoria, permanece o desafio de restaurar confiança: não apenas no veredito final do árbitro, mas no sistema inteiro que o cerca.






















