Federica Brignone encerra hoje sua participação olímpica na pista que, de muitos modos, é a sua casa: o Olympia delle Tofane, em Cortina. Aos 35 anos, a valdostana leva para a largada do slalom gigante — prova com início previsto às 10h e segunda manche às 13h30 — não só o histórico competitivo, mas um simbolismo que atravessa lesões, recuperações e uma carreira que ajudou a redesenhar o esqui feminino italiano.
Há apenas dez meses, a campeã sofreu um grave problema na perna esquerda que fez a sua volta às pistas ser, antes de tudo, um esforço de reconstrução humana e técnica. A consolidação veio com a medalha de ouro no super-G conquistada na quinta-feira anterior, e agora Brignone busca a quinta medalha olímpica — além do ouro recente, já consta em seu currículo um prata e dois bronzes.
No gate, estará acompanhada por compatriotas e rivais que desenham o atual mapa do esqui italiano: Sofia Goggia, Lara Della Mea e a vicentina Asja Zenere. No entanto, fora da pista o cenário é doméstico e afetivo: no parterre de chegada a aguardam a mãe, Maria Rosa Quario — conhecida entre os antigos como “Ninna”, ex-slalomista da chamada Valanga Rosa —, o pai Daniele e o irmão Davide, que também desempenha papel de técnico e companhia inseparável nas viagens e treinamentos.
Em tom contido e cuidadoso, Maria Rosa Quario descreve o momento com a clareza de quem conhece tanto a adrenalina da vitória quanto a ansiedade da espera. “Ela é assim: solare, gosta de festa. Não entrou em pista na sexta-feira e ontem fez o treino de gigante. Está concentrada, tranquila e confiante nos próprios meios”, disse a mãe. Para a família, a recuperação pós-lesão teve um valor que transcendia o resultado: “Depois do infortunio, bastava nos ver ela em pé; o que veio depois foi um extra”.
Do ponto de vista emocional, a mãe admite que é no slalom gigante que o nó no peito aperta: “É a prova que mais me estressa”. A explicação é prática e humana: ao contrário de provas de uma só descida, onde o resultado é imediato, o gigante tem duas manchetes e um longo interregno entre elas. Na segunda descida há ainda a inversão dos 30 melhores, um mecanismo que transforma a retaguarda em um teatro de expectativa e tensão — e que, segundo Quario, é mais difícil de acompanhar de fora do que de dentro do capacete.
Há também uma leitura fisiológica: a dupla descida exige mais curvas e impõe maior carga ao joelho, algo que preocupa por razões óbvias quando se fala de recuperações. Ainda assim, Brignone demonstrou após seu retorno em Plan de Corones, no dia 20 de janeiro, que o gigante responde bem ao seu ritmo habitual — uma combinação de técnica fluida e leitura de pista que sempre foi sua assinatura.
Como observador que vê no esporte uma trama social e histórica, fica claro que a presença de Brignone em Cortina representa algo além da busca por mais uma medalha. É uma imagem pública de resistência e continuidade: a atleta que atravessa lesões, que retorna e que transforma o esforço individual em memória coletiva. Em linguagem mais simples, é a prova viva de que, em esportes de alto risco, o verdadeiro triunfo também passa por conseguir levantar-se e voltar a competir na sua melhor pista.
Às 10h a largada; às 13h30, a segunda manche. Para além do cronômetro, será interessante observar como a narrativa construída ao redor de Federica Brignone — entre família, história e país — se entrelaça nesta sua derradeira apresentação olímpica no gigante de Cortina.





















