Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Na tarde clara sobre as Tofane, a neve e a mais velha das certezas do esqui italiano encontraram-se num instante de suspensão. Aos 35 anos e 213 dias, Federica Brignone escreveu mais um capítulo da memória esportiva da Itália: o segundo ouro olímpico, feito que a iguala a Alberto Tomba na galeria dos campeões absolutos do esqui alpino do país.
Às 14h25, com o capacete de tigre a rasgar o vento, a pista deixou de ser apenas um traçado de gelo e transformou-se em sua presa. Em 2 minutos, 13 segundos e 50 centésimos, a italiana imprimiu um rastro de autoridade: cada intertempo foi uma garra sobre a classificação. A placca na perna — objeto de reconstrução e de um processo de recuperação longo — fez seu papel silencioso; a cabeça, que precisava ficar fria, permaneceu no lugar certo. O resultado traduz-se em números, mas o significado vai além: é a reescritura de um percurso forjado entre dor, disciplina e resiliência.
Na lista de adversárias, nomes que fazem a contemporaneidade do esqui mundial: a sueca Sara Hector e a norueguesa Thea Stjernesund subiram ao pódio ao lado de Brignone, mas foi a reverência delas que chamou atenção. Em um gesto nobre — de lealdade esportiva e reconhecimento técnico — as duas correram para abraçar a vencedora, ajoelhando-se aos seus pés como quem reconhece não só uma vitória, mas uma carreira. Essas imagens dizem muito sobre o respeito que a atleta inspira entre pares.
Por outro lado, a corrida teve surpresas e ausências simbólicas: a norte-americana Mikaela Shiffrin passou aquém das expectativas e houve o silêncio de Sofia Goggia, presença que, na prática, se fez notória pela falta de gesto público imediato. O silêncio de Goggia — visto por muitos como um signo de tensão interna e das complexas relações dentro do grupo italiano — tornou-se parte da narrativa daquela tarde.
Entre as vozes que analisaram a performance, o médico Andrea Panzeri destacou que “os grandes campeões têm sempre algo a mais”; para ele, a combinação da alta tolerância à dor e de uma cabeça forte é diferencial essencial. Não é um comentário vazio: remete a dez meses de recuperação, 72 horas de pressão acumulada nas vésperas e à gestão de um corpo que foi submetido a intervenções e retomadas progressivas.
O irmão de Federica resumiu, com emoção contida, o que muitos sentiram ao ver a atleta conquistar o ouro: “Sou admirado, apesar de ter vivido o caminho com ela; independentemente dos ouros que conquistou, é uma honra estar ao lado dela”. Palavras que colocam o feito no eixo humano, longe de lugares comuns do espetáculo.
Mais do que um pódio, o triunfo de Brignone é um mapa de leitura sobre o estado atual do esporte italiano: tradição pessoal e coletiva, capacidade de reinvenção após a adversidade, e o modo como campeões se tornam, também, objetos de narrativa pública e memória cultural. Em tempos em que os grandes estádios voltam a ser arenas de identidade regional e nacional, a imagem da Tigre que ruge nas Tofane ficará como retrato de uma atleta que soube transformar dor em voz e técnica em símbolo.
Ao final, sentada na área hospitality, coronada sem cerimônias, Brignone mostrou o que é costumeiro nos grandes vencedores italianos: sobriedade, consciência do peso histórico e pouco gosto por exibições. A festa, para quem a observa com olhar histórico, é também uma confirmação de continuidade — a Itália que educa, forja e respeita seus campeões.





















