Federica Brignone escreveu uma página decisiva na história do esqui alpino italiano ao vencer o Super-G em Cortina d’Ampezzo pelos Jogos Olímpicos Milano Cortina 2026. Na pista que a consagrou, a “Tigre di La Salle” confirmou classe, experiência e coragem para transformar uma temporada marcada pela dor em um triunfo coletivo.
Aos 35 anos, Brignone cruzou a chegada em 1’23″41, tempo que se revelou impossível de ser alcançado pelas adversárias. A francesa Romane Mirandoli ficou a 41 centésimos e levou a prata; a austríaca Cornelia Hütter assegurou o bronze a 52 centésimos, por apenas um centésimo sobre a compatriota Ariane Raedler. Entre as italianas, Laura Pirovano terminou em quinto e Elena Curtoni em sétimo, resultado que reforça a profundidade do esqui feminino da Itália.
O triunfo de Brignone ganhou contornos simbólicos e emotivos: a consagração veio na Olympia delle Tofane, diante do público italiano e do Presidente da República, Sergio Mattarella. Ainda mais notável por suceder à gravíssima queda sofrida em 3 de abril do ano anterior, quando uma inforcata na segunda manche do gigante em Val di Fassa provocou uma fratura cominutiva do planalto tibial e da cabeça do perônio, além da ruptura do ligamento cruzado anterior, lesões capazes de encerrar carreiras.
Foram 315 dias entre a lesão e o ouro olímpico, um intervalo em que se testaram não só a readaptação física, mas a narrativa pessoal de quem já ocupava um espaço consolidado no pódio internacional. Brignone somava, antes de Cortina, um bronze em 2018 e prata em 2022 no gigante, além de um bronze na combinada — palmarés que agora recebe o acréscimo mais precioso.
Historicamente, com o triunfo de hoje, Federica torna-se a quinta italiana a conquistar o ouro olímpico no esqui alpino. O rol de campeãs inclui Paoletta Magoni (slalom, Sarajevo 1984), Deborah Compagnoni (três ouros: Super-G em Albertville 1992; gigante em Lillehammer 1994 e Nagano 1998), Daniela Ceccarelli (Super-G, Salt Lake City 2002) e Sofia Goggia (descida, PyeongChang 2018).
Ao comentar a vitória, Brignone resumiu a sensação com sobriedade: “É algo incrível, pensei em esquiar e dar o meu máximo, disse ‘ou vai ou racha’. Não esperava ganhar o ouro, sinceramente”. A fala traduz menos surpresa e mais reconhecimento de uma aposta pessoal vencida — a aposta sobre a própria resiliência.
Como repórter e analista, vejo nesta vitória um exemplo do que o esporte carrega de político e cultural: um atleta que retorna de uma lesão grave e conquista o auge no cenário doméstico projeta uma narrativa de reabilitação coletiva. Estádios e pistas tornam-se palcos onde memórias regionais (a relação de Brignone com a Val d’Aosta) se misturam à projeção nacional, e onde a presença do chefe de Estado cristaliza o caráter simbólico do feito.
Em termos técnicos, a linha escolhida por Brignone hoje foi impecável — agressiva quando necessário, precisa nas passagens-chave e sustentada por velocidade adequada a um Super-G olímpico. Foi a combinação de técnica, experiência e controle do risco que permitiu a zampata decisiva. O ouro não nasce apenas do momento; nasce de uma carreira construída com consistência, capacidade de adaptação e, agora, de superação.
Para a Itália, além do metal mais valioso, fica a narrativa potente: diante das adversidades e no calor da própria pátria, uma mulher que representa tradição e modernidade do esqui italiano volta a elevar a bandeira tricolor. Federica Brignone não só venceu uma prova; redesenhou, com um gesto atlético, um trecho importante da memória esportiva italiana.
Federica Brignone, Super-G, Cortina, ouro — palavras que, hoje, reúnem técnica, história e emoção em uma só imagem: a de uma atleta que transformou a dor em glória.






















