Federica Brignone foi recebida em festa na Casa Italia em Cortina d’Ampezzo depois de sagrar-se campeã olímpica no Super-G dos Jogos de Milano Cortina. A esquiadora valdostana apareceu com a medalha de ouro ao pescoço e falou com uma mistura de surpresa e gratidão: “Ainda estou incrédula, nunca pensei que poderia ganhar um ouro”.
A vitória tem contornos de redenção. Brignone recordou o período pós-acidente, quando sequer tinha certeza se voltaria a competir em alto nível: “Não sabia nem se voltaria a ser atleta depois do acidente”. A atleta mencionou também as dificuldades recentes — inclusive um episódio dois dias antes em que teve problema até para calçar os esquis: “Foi um dia difícil” — e qualificou todo o caminho até o pódio como um percurso árduo, marcado por poucos dias totalmente positivos.
No tom que caracteriza sua carreira, Brignone traduziu a conquista em algo maior que a soma de tempos e linhas de chegada: “Estar aqui nas Olimpíadas já foi algo especial”. Agora, com o ouro, a sensação é de privilégio e orgulho: “Sinto-me orgulhosa, uma privilegiada, sortuda por estar aqui”.
Enquanto repórter e observador das tramas que ligam esporte, território e memória coletiva, é impossível não notar o significado desta medalha para a narrativa do esqui italiano. Milano Cortina recupera assim uma tradição alpina que passa pela formação nas vales, pelo patrocínio de clubes locais e pelo capital simbólico de atletas que são, ao mesmo tempo, produtos de sistemas regionais e símbolos nacionais. A trajetória de Brignone — vinda da Val d’Aosta, forjada em pistas que misturam clima, técnica e cultura — reaproxima o público à noção de que o esqui é também uma expressão de identidade regional.
Há, ainda, uma dimensão humana incontornável: a da dor e da persistência. A frase de Brignone sobre a necessidade de “continuar a sofrer” não é uma dramatização vazia, mas a constatação de que altos rendimentos exigem resiliência física e psicológica. Em tempos em que o esporte profissional é muitas vezes reduzido a métricas, esta medalha afirma uma narrativa mais complexa — onde a recuperação e a continuidade carregam tanto peso quanto a medalha em si.
A comemoração em Casa Italia reforça também o papel das estruturas de acolhimento e identidade — locais onde atletas, técnicos e torcedores se reconhecem e celebram coletivamente. A imagem de Brignone com o ouro é, portanto, simultaneamente um triunfo pessoal e um capítulo de memória esportiva italiana.
Em Cortina, a noite foi de festa e reflexão: uma medalha que coroou não só uma carreira, mas a persistência de uma atleta que transformou lesão e incerteza em afirmação olímpica.





















