Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Depois de conquistar o segundo ouro nos Jogos em casa, Federica Brignone falou com a sobriedade de quem vive o esporte como memória e responsabilidade. Em entrevista emotiva, a campeã descreveu o turbilhão que antecedeu a vitória: a ansiedade antes da segunda descida, a sensação de quase querer desistir e, acima de tudo, o desejo de proteger sua imagem e a própria recuperação.
“Que obra-prima”, disse ela, com um sorriso contido. “Eu não tinha expectativas. Mas depois do primeiro ouro, algumas perguntas aparecem. Descer com o 30, com todo mundo esperando… não é fácil. Quando cortei a linha, senti um estrondo. E disse: por favor, por favor…”
O telefone tocava sem parar. Figuras históricas do esqui italiano — de Alberto Tomba a Deborah Compagnoni — enviaram cumprimentos e brincadeiras. Brignone respondeu com a mesma seriedade que a levou ao topo: “Sim, Albi, com certeza faço o slalom hoje à noite na Casa Áustria…”. Ao mesmo tempo, pediu que as atenções não a transformassem em espetáculo além do necessário.
Ao comentar a prova, ela explicou a leitura técnica da pista: na primeira manga sentiu-se surpreendentemente relaxada, chegando a pensar ‘acorda, tem que forçar’. A pista, desenhada de forma suave, não oferecia nenhuma curva que a desafiasse a repensar a linha. “Fui toda em velocidade, procurando ser fluida porque a neve estava fácil”.
Na espera pela segunda descida, a tensão aumentou. Brignone tentou distrair-se com pequenas rotinas: comer algo, trabalhar com o fisioterapeuta, assistir ao biatlo masculino, ouvir música. “Tive um momento em que parecia que tudo ia explodir dentro de mim: estava tensa demais. Me esforcei para me aquecer e me acalmar. Tive de me obrigar. Não queria descer. Mas precisava. E tentei fazer o meu melhor”.
Descrevendo o estado mental em competição, a atleta falou de um foco absoluto, quase instintivo: “É como estar em alerta total, uma sensação parecida com o medo de morrer. Consegui pensar apenas na esquiada e deixá-la acontecer”. Ao final, apesar da dúvida inicial sobre a agressividade de sua prova, o clamor da torcida confirmou a dimensão do feito. “Quando vi o número um, me entreguei: mãe, que loucura!”
De forma ainda mais tocante, Brignone lembrou que, apenas dez meses atrás, estava no hospital. “Não sei como consegui. Por muito tempo não soube se poderia participar. Já estava feliz só por ter voltado como atleta. Se tivesse vindo apenas para ganhar o ouro, a pressão teria me esmagado”.
Seu pedido mais sincero, porém, foi simples: que parem de compartilhar as imagens do seu incidente. “Nunca vi o vídeo. Depois do superG tive de lançar o telefone fora”. A atleta quer que a narrativa seja sobre a recuperação e o trabalho, não sobre a repetição de um momento de dor.
Sobre propostas alheias, Brignone foi direta: “Sanremo? Não, obrigado”. Permanece fiel ao papel que construiu ao longo de 15 anos: ser esquiadora. “Faço com que os cantores façam o trabalho deles. Eu fico onde sempre estive”.
Ao recusar o brilho midiático de entretenimentos que pouco têm a ver com a cultura do esporte, ela reafirma uma postura que é, ao mesmo tempo, profissional e cultural: o atleta como membro de uma memória coletiva, cuja imagem e história devem ser tratadas com respeito. As medalhas ampliam o lugar de Brignone na narrativa do esqui italiano, mas é sua trajetória — da clínica à pista olímpica — que explica por que sua vitória ecoa além do pódio.
Federica Brignone termina por lembrar que o esporte não é só espetáculo, é experiência humana: “Estas medalhas não deveriam mudar meu status. Mas reconheço que os Jogos em casa têm um peso midiático diferente”.
Para quem observa o esporte como processo social, a vitória de Brignone é mais que um resultado: é um comentário sobre resiliência, sobre a relação entre memória e espetáculo e sobre os limites que o atleta impõe à mercantilização de sua imagem.





















