Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
A italiana Federica Brignone confirmou que competirá na prova de descida nos Jogos de Milano-Cortina. A decisão veio após o último reconhecimento da pista Olympia delle Tofane, e mantém a líder técnica do esqui alpino nacional entre as favoritas a enfrentar um traçado exigente, apesar do incômodo físico que a acompanha desde a cerimônia de abertura.
Ao lado de Sofia Goggia, Nicol Delago e Laura Pirovano, Brignone optou por não recuar mesmo reconhecendo que a perna continua a lhe dar trabalho. A atleta — vencedora da Coppa del Mondo 2025 e em processo de retorno após um grave acidente — encara a descida olímpica de domingo, 8 de fevereiro, como prova e como teste funcional: além do resultado imediato, a corrida servirá como preparação para o super-G e para o gigante que virão na sequência.
Historicamente, a descida representa para Brignone uma prova de dualidade: é ao mesmo tempo desafio técnico e laboratório de sensações. Em PyeongChang 2018, sua participação na descida terminou em abandono — experiência que, agora, compõe um repertório de cautela e aprendizado. Recentemente, em Plan de Corones, Brignone surpreendeu ao voltar ao top-10 com um sexto lugar, após dez meses longe das pistas, mostrando que a confiança se reconstrói por etapas.
Após o reconhecimento final nas Tofane, a esquiadora comentou com moderação técnica: “Cada dia é importante para ganhar confiança, procuro me colocar à prova e preciso experimentar as situações de corrida. Para mim, é um treino importante para entender como encarar algumas curvas no super-G, para ver como a perna reage em saltos e aterrissagens”. A fala revela a leitura clínica que faz do próprio corpo como instrumento de performance — uma atitude típica de atletas que equilibram ambição e gerenciamento de risco.
O aspecto humano da história ganhou foco na cerimônia de abertura em Cortina. Brignone foi a porta-bandeira da delegação italiana, gesto que enfeixa simbolismo e responsabilidade. A emoção, entretanto, teve custo físico: depois do desfile, ela contou que o joelho inchou a ponto de não conseguir dobrá-lo — “às 23h15 voltei para o quarto e tinha um joelho enorme; tive que colocar gelo porque não conseguia dobrar a perna” — e foi carregada nos ombros pelo companheiro Amos Mosaner, que a ajudou a se locomover. “Pobre dele, devo ter destruído as costas”, disse ela com sorriso resignado, lembrando que a emoção da cerimônia também atrapalhou o sono.
Do ponto de vista técnico e simbólico, a decisão de competir sintetiza dois vetores do esporte moderno: a gestão de uma carreira marcada por lesões e a dimensão pública do atleta como representante de uma comunidade. Brignone personifica essa tensão — considerada por muitos uma das esportistas mais completas do circuito, ela retorna à alta competição com uma leitura que mistura prudência e ambição estratégica.
Domingo, portanto, será um dia de observação não só do resultado, mas da resposta física: como reagirá o corpo de Brignone sob as solicitantes forças da descida olímpica? A resposta terá impacto direto sobre as escolhas para as provas seguintes e oferecerá, para o público italiano, mais que um resultado — uma narrativa de recuperação, persistência e simbolismo nacional.
Data da matéria: 7 de fevereiro de 2026





















