Roma, 11 de fevereiro de 2026 — Em uma noite que mistura exaustão e dignidade, a dupla italiana formada por Marco Fabbri e Charlène Guignard deixou o gelo de Milano Cortina com o sabor agridoce do quarto lugar na prova de dança no gelo das Olimpíadas. Aos microfones da emissora nacional, Fabbri foi direto: ‘seria hipócrita dizer que estamos contentíssimos, mas orgulhosos sim’.
O balanço da dupla não se limita ao resultado isolado: além do quarto lugar na dança, a temporada trouxe um terceiro lugar no team event, um resultado que, para o contexto italiano do esporte de pista, carrega significado além das medalhas. Em termos de memória coletiva, são performances que entram no repertório de uma geração que acompanha a consolidação da patinação artística na Itália moderna.
Guignard desabou em lágrimas ao falar da presença da família e dos amigos: ‘agora vem aquele misto de estresse, felicidade, tantos pensamentos. Hoje estão aqui muitos familiares e amigos que vieram especialmente para nos ver e aquecem o coração. Tem sido realmente pesado, são 10 dias sem pausa; mais do que isso teria sido difícil’. A imagem dos dois, cansados mas firmes, sintetiza bem o caráter das grandes competições: apenas o ápice permite ver, com nitidez, o custo humano por trás do espetáculo.
Como repórter e analista, lembro que resultados como esse não se explicam apenas por técnica e suor. São também produto de estruturas — clubes, federações, calendários e rotinas de formação — e de decisões pessoais que atravessam carreiras. A declaração de Fabbri sobre a possibilidade de ser a ‘última vez juntos’ abre uma janela para a reflexão sobre ciclos esportivos: ídolos e duplas não são eternos; tornam-se, com o tempo, referências que definem e reorientam caminhos para jovens atletas.
Do ponto de vista sociocultural, as Olimpíadas de Milano Cortina funcionam como um espelho: mostram as tensões entre expectativas nacionais e limitações práticas, entre a grandiosidade do evento e a fragilidade do corpo humano. O quarto lugar, nesse sentido, é menos uma falha e mais um ponto de narrativa — sinaliza proximidade com o pódio e, ao mesmo tempo, dramatiza a margem que separa medalhas de quase-medalhas.
Ao encerrar a entrevista, Fabbri resumiu o sentimento com economia e honestidade: é preciso descansar, pensar e decidir o que vem a seguir. Para quem acompanha com atenção histórica e cultural, como faço no meu trabalho, essa pausa é parte do ofício de compreender o esporte em suas várias camadas: pessoal, institucional e simbólica.
Enquanto torcedores e observadores debatem se haverá continuidade da dupla, permanece a certeza de que a apresentação em Milano Cortina ficará registrada — não apenas pelo resultado, mas pelo relato humano que a acompanhou: cansaço, emoção, família e a responsabilidade pública de representar uma nação em busca de identidade esportiva.





















