Por Otávio Marchesini — A vitória dos Estados Unidos sobre o Canadá por 2 a 1, nos Milão Cortina 2026, não foi apenas mais um resultado esportivo: foi um recorte simbólico da persistência e da reinvenção de um programa que agora soma o terceiro ouro olímpico em hóquei. O triunfo, decidido no tempo suplementar, coroou uma partida tensa e tecnicamente exigente na Arena Santa Giulia, lotada de estrelas da NHL e de expectadores atentos ao que o jogo revela sobre identidades colectivas e tradições nacionais.
O match winner foi Jack Hughes, atacante do New Jersey Devils, que marcou o gol do título aos 1’41” do overtime. A jogada nasceu de um passe de Zach Werenski e encontrou o desfecho no instinto de um jogador já acostumado às grandes pressões. Antes disso, foi Matt Boldy quem abriu o placar para os EUA, com um tento aos seis minutos do primeiro período. O empate do Canadá veio apenas nos instantes finais da segunda etapa, com Cale Makar, levando a partida a um terceiro tempo eletrizante e, por fim, ao período extra configurado para três jogadores de movimentação mais o goleiro.
O papel de Connor Hellebuyck foi central na narrativa estadunidense: o goleiro, dos Winnipeg Jets, construiu defesas cruciais ao longo do jogo e foi apontado como um dos protagonistas que permitiram a equipe chegar inteira ao momento decisivo. A presença massiva de atletas da NHL no gelo, assim como o nível técnico exibido, confirma que o torneio em Milão-Cortina sucedeu em trazer o ápice do hóquei mundial ao palco olímpico.
Esse título marca o terceiro ouro dos EUA no hóquei em Jogos Olímpicos — depois de Squaw Valley 1960 e da célebre conquista de Lake Placid 1980, quando uma equipe majoritariamente amadora e universitária derrotou a União Soviética em um contexto com peso político e simbólico considerável. O 22 de fevereiro de 2026 soma-se, portanto, a essas datas como um momento de afirmação para o hóquei norte-americano.
Ao final da partida, a equipe norte-americana celebrou levando em triunfo a camisa de número 13 de Johnny Gaudreau, jogador que faleceu tragicamente em 29 de agosto de 2024, junto com o irmão Matthew, vítimas de um atropelamento enquanto pedalavam no New Jersey — um gesto que misturou vitória e memória, lembrando que o esporte carrega, além das vitórias, histórias humanas e coletivas.
Do ponto de vista histórico, essa foi a sétima final olímpica entre Estados Unidos e Canadá; a superioridade do Canadá segue evidente no número total de ouros — nove no total —, mas o resultado em Milão-Cortina reforça o equilíbrio contemporâneo entre as duas potências da modalidade.
No plano institucional e cultural, a conquista americana em 2026 convida a uma reflexão: o hóquei continua a ser um veículo de representação regional e nacional, mas também um mercado globalizado onde ligas como a NHL reconfiguram identidades e expectativas. Vencer o ouro olímpico hoje exige tanto preparo técnico quanto entendimento das dinâmicas profissionais que moldam o jogador moderno.
Nas redes, o presidente dos Estados Unidos celebrou a vitória, reforçando a visibilidade política do resultado. Mais do que um gol, Milão-Cortina 2026 produziu uma imagem potente — de um time que, entre luto e ambição, alcançou um patamar histórico.






















