Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O esqui-alpinismo faz sua estreia nas Olimpíadas de Inverno com um formato que concentra drama e técnica em poucos minutos. Observando um treinamento na chegada da pista Stelvio fica claro: não se trata apenas de esquiar, mas de administrar esforço em verticalidade intensa, dominar trocas rápidas de equipamento e manter precisão em descidas técnicas.
O teste de sprint resume essa exigência. A bateria começa com cerca de cinquenta metros de subida na neve com os esquis calçados e as chamadas peles — hoje feitas de materiais sintéticos, embora ainda recebam o apelido de “focas”. Em seguida vem a parte que separa especialistas: tirar os esquis, encarar cerca de quarenta degraus correndo com botas e mochila, apoiando-se nos bastões. Depois, novo arranque até a transition zone, onde a rapidez e a calma são essenciais para removê-las sem erro — penalidades podem decidir posições.
O circuito tem 610 metros e termina com uma descida onde o atleta passa por portões azuis e vermelhos, lembrando o traçado do gigante no snowboard. Em média, uma bateria dura cerca de dois minutos e quarenta segundos: é pouco tempo, mas foi pensado para que tudo se decida na parte mais vertical e exigente fisicamente. O formato é curto e dinâmico: baterias de seis atletas, com os três primeiros avançando até as finais.
Do ponto de vista humano, o evento traz histórias que ilustram a relação íntima entre território, família e esporte. Giulia Murada, pioneira do esqui-alpinismo italiano, disputa tudo sob o olhar do pai Ivan — campeão mundial da modalidade e seu treinador. A confiança entre eles é direta: Murada lembra que não está nas Olimpíadas apenas para participar. Aos vinte e sete anos, natural de Albosaggia, perto de Sondrio — região que a prática consagra como uma das suas raízes — ela simboliza a continuidade de uma tradição local transformada em espetáculo global.
Também representam essa ligação íntima com o esporte Alba De Silvestro e Michele Boscacci. O casal, dentro e fora da pista, disputará as sprints individuais e depois a prova de revezamento mista. Pequenos gestos contam: Alba tingiu o cabelo de rosa para combinar com os esquis, mas a anedota revela algo mais profundo — o esqui-alpinismo cria identidades visuais e coletivas, reforçando pertencimentos regionais e estéticos.
Treinar para um sprint exige preparação específica. A base é aeróbica: bicicleta e corrida no verão, esqui no inverno, complementar com sessões de técnica e trabalho de transição. A escalada vertical, mesmo em trechos curtos, demanda potência, enquanto as descidas exigem leitura do terreno e controle sob fadiga. Equipamentos leves, pele bem colada e transições sem falhas são tão decisivos quanto os metros ganhos na subida.
Como analista, não vejo a estreia do esqui-alpinismo como uma simples ampliação do programa olímpico, mas como um gesto simbólico: trazer uma disciplina nascida de necessidade e mobilidade de montanha para a centralidade midiática. É a passagem de uma prática de resistência e navegação por territórios marginalizados para a vitrine global. Para regiões como Sondrio, é reconhecimento; para o esporte, o desafio de profissionalização sem perder raízes.
Nos próximos dias, atenção aos detalhes: quem domina as transições, quem lê melhor a verticalidade e quem se preserva na descida poderá transformar dois minutos e quarenta segundos em história olímpica.






















