A cerimônia de abertura dos Jogos Milano-Cortina foi, antes de tudo, um ato de narrativa nacional. Em imagens projetadas em San Siro e em gestos simbólicos entre o Arco della Pace, em Milão, e a Piazza Dibona, em Cortina d’Ampezzo, a Itália ofereceu ao mundo uma síntese cultural que teve forte presença da Emilia-Romagna.
Seguiu-se a antiga liturgia das Olimpíadas: braseiros olímpicos acesos, bandeiras, ícones, música. O espetáculo foi visto por quase dois bilhões de pessoas, e a região entrou nesse retrato coletivo de modo discreto e, ao mesmo tempo, inegável.
Uma das imagens mais comentadas foi a de Matilda De Angelis no papel de diretora daquele segmento que encadeava símbolos da italianidade. De Angelis oferece ao roteiro televisivo um rosto contemporâneo e plausível: bolognesa de presença europeia, personifica uma parte do país que não precisa constar no mapa para ser reconhecida.
Houve, igualmente, o tributo a Giorgio Armani. Sua figura foi projetada na grande tela; seu trabalho vestiu a delegação italiana e protagonizou a sequência do ingresso do Tricolore. Modelos desfilaram em versões dos icônicos tailleurs em branco, vermelho e verde, abrindo caminho para Vittoria Ceretti — vestida em um Armani Privé sob medida — que conduziu a bandeira até os Corazzieri, responsáveis por içá-la no momento do Hino de Mameli.
O canto, reinterpretado para a ocasião, ganhou as cores emocionais de Laura Pausini, que entrou visivelmente comovida, a mão no peito. A cantora trouxe sua romagnolidade direta, sem artifícios, lembrando que o canto nacional é também um mapa de afetos e memórias.
O acendimento do fogo foi um gesto pensado para a memória coletiva: Alberto Tomba, um dos maiores campeões do esqui italiano, foi o responsável por acender o braseiro. Tomba representa, de modo quase arquetípico, o imaginário de Bologna — uma síntese de engenho, leveza e ironia que transborda para além do esporte.
Menos visível, mas presente no relato da transmissão, esteve a voz de Giuliano Razzoli, reggiano e campeão olímpico, que atuou como comentarista. Sua participação lembrou que a presença local nem sempre ocupa o centro do palco: muitas vezes ela explica, traduz e contextualiza a experiência.
Por fim, os momentos de evocação de Giuseppe Verdi e Raffaella Carrà reforçaram como a cerimônia procurou costurar um repertório cultural que atravessa regiões e gerações. Verdi, com sua herança no melodrama, e Carrà, com sua modernidade popular, foram lembrados como patrimônios comuns que ajudam a compor a narrativa nacional projetada em Milão e Cortina.
O balanço é claro: a Emilia-Romagna não foi apenas figurante. Sua presença foi espalhada em rostos, vozes e gestos, traduzindo como o esporte, a cultura e a memória se entrelaçam quando um país decide contar a si mesmo ao mundo.






















