Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O que significa encerrar uma carreira esportiva hoje passa muito além do cronômetro ou da última linha traçada na neve. Para Dorothea Wierer, cuja trajetória se confunde com a paisagem do Alto Adige, o adeus tem camadas — pessoais, simbólicas e públicas. A biatleta de Brunico, que completa 36 anos em abril, deu um dos seus lastres de glória na República Tcheca, onde foi aplaudida por mais de 23 mil pessoas enquanto um vídeo tributo reunia seus momentos mais icônicos.
Wierer já anunciou o adeus à Copa do Mundo, mas mantém uma agenda que a devolve ao que sempre chamou de “seu lugar”: a pista de Anterselva, o jardim de casa. A partir de 8 de fevereiro, a campeã estará entre as protagonistas das provas de biatlo no estádio que a formou — ali onde calçou os primeiros esquis e onde o esporte é parte do tecido comunitário. É também nesse cenário que a atleta pensa nos próximos capítulos: «Depois da Olimpíada sonho um filho», disse, condensando num plano pessoal o sentido de fim e recomeço.
Há uma outra face nesse retrato: a de uma atleta que não renega a feminilidade e que, ao mesmo tempo, protege suas reservas pessoais. Rolando o feed de Dorothea Wierer encontramos fotos de treinos nas encostas geladas, caminhadas pelos trilhos do Alto Adige e momentos de passarela em Milão. A passagem pelo universo da moda — com encontros públicos com Giorgio Armani e convites para desfiles — e parcerias com marcas como Omega, Red Bull e Samsung fazem parte de uma presença pública construída sem conflitos aparentes entre rendimento esportivo e imagem.
Nem tudo, porém, foi negociável. Wierer contou ter recusado uma proposta de capa da revista Playboy — um pedido que, segundo ela, surgiu da Rússia, onde o biatlo tem forte visibilidade. A condição de posar nua e a necessidade de preservar a própria privacidade levaram-na a dizer não: uma escolha que revela como a relação entre visibilidade e intimidade é gerida por atletas de alta exposição.
Filha do Alto Adige, terceira de cinco irmãos e saída de casa aos 14 anos para seguir a carreira, Dorothea tornou-se uma referência também nas redes: são mais de 644 mil seguidores no Instagram, números que a colocam à frente de grandes nomes do esporte italiano. Essa audiência ampliou seu papel — de competidora a formadora de opinião e figura pública — sem, no entanto, esvaziar o aspecto competitivo que a fez conquistar, entre outros feitos, três medalhas nos Mundiais de 2020, duas delas de ouro.
Ao olhar para a despedida que se aproxima, há uma tensão produtiva entre espetáculo e raiz. Há o glamour dos holofotes milaneses e a materialidade íntima das manhãs em Anterselva; há contratos e passarelas, mas também a necessidade de se recolher para projetar uma vida além das pistas. Essa ambivalência é, talvez, o traço mais representativo do esporte moderno: símbolos públicos que precisam, de tempos em tempos, reencontrar a sua origem.
Wierer não é uma história apenas de resultados. É um estudo sobre como, em uma sociedade que confunde performance com presença permanente, uma atleta arquitetou sua própria saída: com escolhas firmes, preservando a privacidade quando necessário, e assumindo, sem hipocrisia, o lugar de quem também gosta de se vestir bem. O último baile — seja em Milano-Cortina ou sob os pinheiros de Anterselva — não será apenas um adeus ao esporte de competição; será a última dança pública de uma figura que soube traduzir ambição em narrativa coletiva.






















