As Olimpíadas em Milão costumam ser vistas pela lente das medalhas e do espetáculo esportivo, mas há outra narrativa que merece atenção: a interseção entre cultura urbana, status e o futuro da cidade. Em Porta Romana, o Villaggio Olimpico — obra da família Catella — tornou-se um microcosmo dessa dinâmica.
O complexo abriga cerca de 1.700 lugares para atletas, com quartos bem acabados e até detalhes que viraram assunto nas redes sociais, como o famoso banho com o bidê. Mas a característica mais significativa é a intenção de legado: quando as provas terminarem, o alojamento será transformado em studentato. Trata‑se de uma decisão que ultrapassa a logística dos jogos e entra no campo do planejamento urbano, ao oferecer uma solução concreta para moradia estudantil e, ao mesmo tempo, preservar um vestígio físico e social das Olimpíadas.
Fora do Villaggio, a cidade também respira um outro ar: o do divismo olímpico. Em eventos privados, como jantares em endereços de prestígio, circulam figuras internacionais acompanhadas por escoltas e pequenas comitivas. Uma cena recente chamou atenção — em Casa Cipriani, um dos filhos do emir do Qatar, Al Thani, esteve em companhia de amigos e seguranças que acompanhavam o grupo pela sala. São imagens que traduzem o encontro entre poder econômico e representação simbólica que as Olimpíadas potencializam.
Ao mesmo tempo, na esfera dos times, decisões distintas evidenciam prioridades e posturas. A equipe masculina canadense de hóquei no gelo optou por deixar o Villaggio e instalar‑se num hotel 5 estrelas no centro de Milão, enquanto a seleção feminina preferiu permanecer no alojamento, buscando o convívio e o espírito olímpico. Esse contraste fala tanto de escolhas logísticas quanto de estratégias identitárias: confortos de prestígio versus experiência coletiva.
Como analista que observa o esporte através de suas atribuições sociais e simbólicas, vale sublinhar duas leituras. Primeiro, a transformação do Villaggio em studentato é um gesto de responsabilidade urbana que pode diluir críticas costumeiras sobre obras efêmeras dos grandes eventos. Segundo, a presença de hóspedes de alto poder aquisitivo e a mudança de equipes para hotéis de luxo revelam um lado menos falado das Olimpíadas: a competição por reconhecimento social e visibilidade fora das pistas e campos.
Em suma, Milão oferece, nestes dias, uma aula de convivência entre tradição e consumo, entre legado tangível e ostentação passageira. Os espaços — do Villaggio aos hotéis — funcionam como palimpsestos: deixam marcas além das competições, sendo reinterpretados pelo tecido urbano e pela memória coletiva. Essa tensão entre utilidade pública e divismo privado é talvez a história mais interessante para ser acompanhada depois que as luzes das arenas se apagarem.
Otávio Marchesini, repórter de esportes — Espresso Italia






















