Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma prova que prometia ser a coroação de uma carreira construída a golpes de constância e resistência, Davide Ghiotto terminou em sexto lugar nos 10.000 metros dos Jogos Olímpicos, resultado que custou caro ao moral do campeão vicentino. Conhecido nos círculos do gelo como “Il Signore dei Pattini”, Ghiotto ficou longe da medalha e do sonho do ouro que, para muitos, parecia ao alcance.
O episódio reabre debates sobre tempo, renovação e o preço pessoal do esporte de alto rendimento. Aos 32 anos e prestes a completar 33, Ghiotto encara não apenas adversários mais jovens — como o ouro de Jilek, doze anos mais novo, e a prata de Semirunnyi, nove anos mais novo —, mas também a evidência de que a competição cresceu em intensidade e profundidade técnica.
O pai, Federico, que já foi profissional do ciclismo entre 1986 e 1993 e conhece bem a lógica das carreiras esportivas, descreveu o estado do filho com franqueza: “Está demoralizado, espero que se recupere”. As palavras trazem a tensão entre empatia familiar e a avaliação fria de quem viu de perto a construção daquele percurso. Federico ponderou ainda sobre a possibilidade de uma nova Olimpíada: “Depende da vontade dele de viver mais quatro anos de sacrifícios longe de casa, da família e dos dois filhos”.
O quarto-feira de Ghiotto teve fundo técnico e emocional. Após uma corrida menos vistosa nos 5.000 metros dias antes, a expectativa era que os 10.000 servissem como redenção. Não foi o caso: cinco adversários terminaram à frente, incluindo o veterano de 40 anos Bergsma, lembrando que a idade não é uma sentença absoluta no esporte de elite.
Nas avaliações técnicas, Matteo Rigoni, primeiro treinador de Ghiotto e responsável pelo seu salto das rotelle para as lâminas, sublinhou que o nível competitivo “nunca esteve tão alto” e lembrou que Davide vinha de uma temporada complicada. O ex-campeão Enrico Fabris ofereceu uma leitura empática: é natural a decepção, mas a Olimpíada de Ghiotto “não terminou” — há ainda a prova por equipes, onde a busca pelo pódio pode funcionar como catalisador emocional.
É preciso ver o episódio com um olhar que vá além do resultado isolado: Ghiotto é tricampeão mundial e trouxe um bronze em Pequim 2022; sua trajetória diz muito sobre a Itália do gelo — um território onde tradição, meios modestos e vontade feroz se cruzam. O homem que conversa com Schopenhauer entre treinos e que transformou horas de patinação em um ofício de pensamento e resistência enfrenta agora a fratura comum a muitos atletas longe do seu apogeu: a dúvida sobre como e por quê continuar.
Federico sugere uma pausa afetiva como método de recuperação: “Se ele achar um pódio na prova por equipes, talvez tenha o fôlego para reencontrar a vontade de lutar”. Há, ainda, a possibilidade pragmática de outros três a quatro anos competitivos — “ele tem condições”, diz o pai —, dependendo, como sempre, da combinação entre saúde física, estímulo mental e incentivos pessoais.
O resultado de 13 de fevereiro vai permanecer como um capítulo importante na narrativa de Ghiotto: não apenas um sexto lugar, mas um espelho onde se lê a passagem do tempo, a chegada de novas gerações e as escolhas íntimas que todo atleta faz entre família, sacrifício e a busca por glória.






















