Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em uma noite marcada mais pela ausência do público do que pelo silêncio do gramado, o Torino reencontrou a vitória em um momento de necessidade. No Grande Torino quase deserto, a equipe granata superou a Lazio por 2 a 0 neste domingo, em estreia vitoriosa de D’Aversa no comando. Os gols saíram em cada tempo, assinados por Simeone e Zapata, e devolveram ao clube um alívio imediato na luta contra o rebaixamento.
D’Aversa alterou a leitura do time já no desenho tático: armou uma defesa em três com Ismajli centralizado entre Coco e Ebosse, reposicionou Vlasic alguns metros à frente como trequartista para alimentar o duplo pivô ofensivo formado por Simeone e Zapata, e trouxe Prati para suprir a ausência do suspenso Ilkhan no meio. A mudança não foi apenas numérica; foi simbólica: o treinador buscou compactar linhas, dar mais proteção à última linha e, ao mesmo tempo, permitir transições rápidas pelos flancos.
Do outro lado, Sarri teve de reconfigurar sua frente de ataque pela perda de Maldini. Ele lançou Ratkov como referência, apoiado por Cancellieri e Zaccagni, e manteve a dupla de zaga com Provstgaard e Romagnoli. A Lazio, contudo, mostrou-se excessivamente previsível e incapaz de furar a estrutura defensiva do Toro até os últimos quinze minutos, quando uma tímida reação já não foi suficiente para alterar o placar.
O resultado interrompe um jejum que já durava um mês para o Torino e, mais importante, afastou o clube da zona de perigo numa rodada em que cada ponto passa a ter valor político e econômico na reta final da temporada. Para a turma de Sarri, o revés pede leitura mais ampla: são três jogos sem balançar as redes, sintoma de um esgotamento ofensivo que precisa ser diagnosticado além do plantel em campo.
Fora das quatro linhas, a partida ofereceu um retrato inquietante do atual casamento entre torcida e clube. O Grande Torino esteve escassamente ocupado: manifestações e protestos se materializaram em faixas espalhadas pela cidade e, de forma inusitada, em um torneio de futebol de salão realizado no pátio exterior do estádio desde o intervalo da manhã até a noite. A cena traduz um distanciamento que ultrapassa o descontentamento por resultados — é uma crise de representação, onde os torcedores buscam outros espaços e formas para afirmar pertencimento e crítica.
Na perspectiva histórica e social que costumo situar o esporte, esse tipo de reação diz tanto sobre a fragilidade institucional dos clubes modernos quanto sobre a autonomia crescente das torcidas na gestão simbólica do futebol. Em campo, porém, coube aos jogadores responder. Simeone e Zapata cumpriram essa tarefa com objetividade: um gol em cada tempo, pragmatismo que se ajustou à leitura prática de D’Aversa.
Ao encerrar a noite, o Torino recolhe três pontos que valem mais do que números; valem fôlego. A Lazio, por sua vez, enfrenta agora uma encruzilhada tática e mental. Restam semanas de Serie A e as decisões tendem a acentuar diferenças não só entre planteis, mas entre modelos de gestão, paciência e capacidade de diálogo com uma torcida que, como ficou claro hoje, já não se contenta apenas com promessas.






















