Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Aos 41 anos e ainda em atividade, Cristiano Ronaldo faz um movimento que amplia sua presença além dos gramados: anunciou a compra de 25% das ações do Almería, clube que disputa a segunda divisão espanhola. O investimento será realizado por meio da CR7 Sports Investments, nova subsidiária dentro do guarda-chuva CR7 SA, responsável pelos empreendimentos globais do jogador no setor esportivo.
Mais do que uma operação financeira, trata-se de um gesto simbólico de transição — de jogador para gestor-investidor — que ecoa em um cenário europeu onde atletas veteranos têm buscado participação direta na governança de clubes. Ronaldo, que atua na Saudi Pro League pelo Al Nassr desde 2022, afirmou que colaborará com a direção do clube espanhol para impulsionar a próxima fase de desenvolvimento, tanto da equipe principal quanto das categorias de base.
“É da minha ambição contribuir para o futebol também fora do campo. O Almería tem bases sólidas e claro potencial de crescimento. Espero trabalhar ao lado da gestão para apoiar a próxima fase do clube”, disse o jogador em comunicado. A declaração dialoga com uma visão de longo prazo: investimentos que visam estrutura, formação e valorização de ativos — elementos cruciais para clubes fora do topo do futebol europeu.
O presidente do Almería, Mohamed Al Khereiji, saudou a entrada do craque: “Estamos muito satisfeitos que Cristiano tenha escolhido o nosso clube para investir. Ele é considerado um dos maiores de todos os tempos, conhece bem os campeonatos espanhóis e entende o potencial do que estamos construindo aqui”. A ênfase no conhecimento do mercado espanhol e na aposta nas categorias de base indica que a parceria poderá abranger projetos esportivos e comerciais.
Do ponto de vista histórico e cultural, a operação insere-se em duas tendências contemporâneas. A primeira é a personalização de marcas de atletas: a marca CR7 deixa de ser apenas um selo de produto para assumir uma dimensão empresarial com presença institucional em um clube. A segunda é a internacionalização do capital no futebol espanhol, onde clubes de menor porte têm procurado parceiros capazes de aportar recursos e redes globais.
Para o Almería, clube situado numa comunidade autônoma com identidade regional forte, a chegada de um investidor com a projeção de Cristiano pode significar maior visibilidade internacional, atração de patrocinadores e estímulo à exportação de talento. Porém, como sempre em processos deste tipo, o desafio será equilibrar a lógica de crescimento com a preservação da identidade local e o projeto desportivo a médio prazo.
Ronaldo, por sua vez, reafirma a estratégia de consolidar um portfólio esportivo: desde academias e marcas pessoais até participações em estruturas de futebol. O ato de adquirir 25% do Almería não implica que deixará os campos — ele segue em atividade —, mas marca um passo deliberado rumo a um papel mais duradouro na arquitetura do jogo.
Em última análise, a compra de participação no Almería merece leitura que ultrapassa o anúncio econômico: revela como figuras centrais do esporte contemporâneo reinventam suas trajetórias, convertendo capital simbólico em influência institucional. Resta acompanhar como essa aposta se traduzirá na prática: investimentos em infra-estrutura, modelo de formação e — inevitavelmente — nas escolhas esportivas que definirão o futuro do clube.






















