Milano Cortina 2026 teve na manhã desta quinta-feira um episódio que combina a dureza das regras com a fragilidade humana que o esporte frequentemente expõe. A presidente do Comitê Olímpico Internacional, Kirsty Coventry, declarou que desejava ter encontrado uma alternativa para que Vladyslav Heraskevych pudesse competir, depois da desclassificação do atleta por conta de um capacete não regulamentar.
O encontro entre Coventry e Heraskevych ocorreu no Sliding Centre de Cortina d’Ampezzo, onde a dirigente descreveu uma manhã “comovente”. Em suas palavras: “Infelizmente não conseguimos encontrar uma solução. Eu realmente queria vê‑lo competir hoje. Foi uma manhã emocionante”. Coventry acrescentou que, ao falar com o atleta, não o fez apenas na condição de presidente, mas também como alguém que conhece as exigências e o lado humano do que significa ser atleta.
O caso, em sua aparente simplicidade — uma irregularidade no equipamento — torna visíveis tensões mais amplas que atravessam as grandes competições: a necessidade de regras claras para garantir equidade e segurança, por um lado, e o caráter único e pessoal do gesto competitivo, por outro. Regulamentos sobre capacetes e demais equipamentos em provas de deslizamento existem para minimizar riscos e padronizar condições, mas também podem colidir com adaptações pessoais que atletas e equipas acreditam melhorar desempenho ou proteção.
Como observador, é preciso situar o episódio num contexto maior. A disciplina técnica do esqui de deslize — e modalidades como o skeleton — convive com frequentes debates sobre homologação de materiais, certificações e a velocidade com que normas técnicas são atualizadas face a inovações. Não se trata apenas de punir uma irregularidade: trata‑se de equilibrar responsabilidade, ciência do risco e compreensão das consequências humanas de decisões tomadas em quadra ou pista.
O gesto de Kirsty Coventry — procurar o atleta, falar com ele de igual para igual e lamentar a falta de saída negociada — revela também a dimensão simbólica do evento olímpico. Os jogos são um palco onde estados, identidades e memórias se encontram; quando uma situação assim ocorre, não é apenas um lance técnico que se perde, mas uma oportunidade de representação e expressão para o próprio atleta e para seu país.
A questão prática que fica é simples: como assegurar que regras sejam cumpridas sem transformar cada controle em um encerramento de histórias pessoais? A resposta passa por procedimentos de verificação mais ágeis, comunicação prévia mais efetiva entre equipas e jurados, e, quando possível, mecanismos de solução imediata que preservem tanto a segurança quanto a presença dos competidores.
Por ora, o episódio em Cortina d’Ampezzo será lembrado como uma manhã em que o rigor regulatório e a compaixão institucional se tocaram, sem que um consenso fosse encontrado. Resta acompanhar se as federações e o próprio COI reverão fluxos e protocolos para que, em futuras ocasiões, o resultado não seja o mesmo: um atleta impedido de disputar por uma questão de equipamento.
Sou Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia, e acompanho com atenção como episódios técnicos se transformam em sinais sobre o presente do esporte europeu — suas regras, suas contradições e aquilo que conservamos como valor coletivo.





















