Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Há eventos esportivos que, mais do que resultados, deixam imagens e episódios capazes de iluminar hábitos sociais de uma época. Um desses episódios aconteceu em Cortina 1956, recontado em tom bem-humorado pelo ex-patinador artístico canadense Robert Paul em um vídeo inédito exibido pelo Museo Olimpico no dia 16 de fevereiro em Cortina. A lembrança não fala apenas de técnica sobre o gelo, mas do público, da geografia emocional do espectador e da menor rigidez das cerimônias de então.
Paul, que anos depois, em Squaw Valley 1960, conquistaria a medalha de ouro em dupla com Barbara Wagner, recordou que nos Jogos de Cortina sua equipe ficou com o sexto lugar. Mas o que ele contou capturou a curiosidade: naquela ocasião, o gelo do Estádio Olímpico foi tomado por laranjas. Segundo Paul, uma dupla de patinadores alemães, muito popular entre o público — pela proximidade geográfica e cultural entre Cortina e a Alemanha — recebeu, na avaliação do público, notas inferiores àquelas que mereciam. A reação foi imediata e peculiar: torcedores atiraram laranjas sobre o gelo.
O episódio, divertido e hoje quase inconcebível, acabou afetando a ordem da competição. Paul e Barbara Wagner estavam escalados para entrar logo após a exibição dos alemães e tiveram de aguardar enquanto funcionários do estádio removiam os frutos, limpando o gelo para permitir a continuação das apresentações. Uma cena que, nas palavras do próprio Paul, mostra o quanto algumas rotinas olímpicas mudaram desde então.
Tal lembrança convida a uma reflexão mais ampla. Seria possível imaginar algo semelhante nos dias de hoje, depois de episódios trágicos como Munique 1972, das rígidas medidas sanitárias e de controle de acesso vigentes em eventos pós-pandemia (Tóquio, Pequim)? O mundo dos esportes tornou-se mais seguro, menos espontâneo e mais regulado — um processo que, apesar de necessário, também mudou a relação visceral entre plateia e espetáculo.
O anedotário de Cortina 1956 funciona, portanto, como pequeno espelho do deslocamento cultural entre uma era e outra: de uma Olimpíada ainda relativamente íntima, com plateias que se sentiam à vontade para manifestar de formas inusitadas, para um megaevento que hoje administra riscos, imagens e comportamentos com uma disciplina quase militar. Não se trata de romantizar o passado, mas de compreender que o que vimos sobre o gelo não foi apenas um lance esportivo — foi também um gesto público, um fragmento de memória coletiva.
Por fim, fica a imagem cômica e quase afetuosa: atletas tentando colocar patins enquanto funcionários reuniam sacos de laranjas sob a luz fria do inverno ampezzano. O clipe do Museo Olimpico não só resgata uma curiosidade, como lembra que o esporte é, sempre, um ponto de encontro entre técnica, público e tempo histórico.






















