Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — A combinada nórdica, uma das modalidades mais antigas dos Jogos Olímpicos de Inverno, vive um momento de encruzilhada que revela muito sobre a relação entre tradição e renovação no esporte internacional. Presente no programa olímpico desde Chamonix 1924, o evento manteve-se historicamente exclusivo ao universo masculino; hoje, a sua sobrevivência competitiva pode depender justamente da abertura ao feminino.
A persistente exclusão das mulheres contrasta com as mensagens públicas do COI sobre igualdade. Paris 2024 foi saudada como um exemplo de paridade — os primeiros Jogos com divisão equilibrada entre homens e mulheres — e Milano Cortina 2026 continua essa trajetória, com as mulheres representando 47% do contingente previsto. Ao mesmo tempo, o programa olímpico se expande com propostas que visam atrair novas audiências: o breaking em Paris; o esqui-alpinismo em Milano Cortina 2026; e esportes como squash, lacrosse, críquete e flag football já confirmados para Los Angeles 2028.
No entanto, a resistência em incluir uma prova feminina na combinada nórdica tem razões práticas além do simbólico. O número de atletas masculinos vem diminuindo: a delegação projetada para Milano Cortina 2026 soma apenas 36 competidores, contra 55 em Pequim 2022. Essa retração torna difícil ao COI equilibrar vagas, calendários e cotas por país — ainda mais em uma disciplina dominada historicamente por poucos atores. Alemanha, Áustria e Finlândia abocanharam quase todas as medalhas de ouro desde 1924, com exceção de duas edições; é um padrão de superioridade que diz tanto sobre tradição quanto sobre concentração de recursos e escolas técnicas.
Do ponto de vista institucional, o momento é delicado. Em junho, quando o COI deverá se posicionar sobre o possível retorno de Rússia e Bielorrússia ao esporte internacional de elite, há quem tema que, como resposta a incertezas políticas e logísticas, o Comitê até cogite medidas mais drásticas — inclusive a revisão completa da presença da modalidade no programa. Nessa equação, a presença crescente das mulheres no circuito internacional surge como uma saída pragmática: ampliar o quadro de atletas e modernizar a narrativa do esporte pode ser a chave para garantir sua continuidade olímpica.
O processo de profissionalização feminina já começou. A FIS instituiu uma Copa do Mundo feminina apenas em 2020; menos de seis anos depois, mais de 200 mulheres competem regularmente em eventos internacionais. Esse salto quantitativo é acompanhado por uma mudança qualitativa: federações nacionais investem em formação, treinos e calendários específicos, e o repertório técnico das atletas se aproxima rapidamente do dos colegas masculinos.
Do ponto de vista cultural, a inclusão é mais do que uma questão de medalhas. Estádios de saltos e pistas de esqui não são apenas cenários de disputa; são espaços de identidade regional e memória coletiva. A abertura da combinada nórdica ao feminino reescreveria uma página importante da história olímpica, sinalizando que a tradição pode ser preservada sem se tornar impeditiva.
Para observadores atentos às estruturas do esporte — federações, economia e formação de talentos — o próximo passo do COI será um termômetro. A entrada das mulheres não é apenas justa; pode ser também a estratégia necessária para que uma disciplina centenária não se transforme em relíquia. Resta acompanhar os desdobramentos institucionais e a evolução do calendário competitivo: nas próximas decisões, estarão em jogo tanto a sobrevivência da modalidade quanto o desenho futuro do esporte olímpico.






















