Por Otávio Marchesini — Em uma edição dos Jogos Olímpicos de Inverno marcada por recordes de técnica e juventude, a presença de Claudia Riegler surge como um lembrete contundente de que o esporte de alto rendimento também é palco de continuidade, experiência e resistência. Com 52 anos, a snowboarder austríaca é a atleta mais idosa em competição em Milano Cortina 2026 e a segunda mais velha entre todos os participantes, atrás apenas do americano Richard Ruohonen, de 54 anos.
Nascida em Viena a 7 de julho de 1973, Claudia Riegler estreou na Copa do Mundo em 1994 e, ao longo de três décadas, acumulou mais de 400 participações no circuito internacional. Especialista no slalom gigante paralelo (parallel giant slalom), construiu uma carreira marcada por vitórias e frequentes presenças no pódio, transformando-se num ponto de referência para gerações sucessivas de praticantes.
Seu histórico competitivo inclui o 7º lugar em Vancouver 2010 e duas medalhas em campeonatos mundiais de 2011 (prata e bronze) na mesma disciplina. A trajetória, porém, não foi linear: após um período de crise e um afastamento parcial, Riegler conduziu um retorno meticuloso — três anos de trabalho discreto com uma equipe reduzida — até reconquistar, aos 41 anos, o título mundial no parallel giant slalom. Esse retorno consolida uma narrativa que vai além dos cronômetros: é a história de um corpo e de uma mente geridos com paciência e estratégia.
Em Milano Cortina 2026, Riegler competiu em Livigno, onde as condições foram extremas — temperaturas abaixo de −15 °C e ventos que castigam o rosto dos atletas. Na fase de classificação, a austríaca ficou em 16º entre 36 competidoras, conseguindo avançar para as eliminatórias. Na sequência, enfrentou a checa Ester Ledecka, campeã olímpica, numa eliminatória definida por margens apertadas; Riegler foi derrotada, mas sua presença e combate em pista foram percebidos como uma vitória simbólica.
O mérito de Claudia Riegler não se mede apenas por posições em provas, mas pela gestão do tempo de carreira: ouvir sinais do corpo, preservar motivação, articular suporte familiar e técnico. Ela mesma resume em frases simples a filosofia que a mantém ativa: “Sempre acreditei que tudo é possível” — uma afirmação que vale tanto para seus próprios limites quanto para as possibilidades que ela enxerga em atletas multifacetados como Ester Ledecka.
Na imagem que deixa a delegação austríaca e o público, Riegler aparece ao lado de snowboarders vinte anos mais jovens, com a máscara por vezes levantada e os cabelos mais grisalhos que loiros. Essa imagem, para além do simbolismo, contém uma leitura social: a trajetória de uma atleta que atravessou três gerações de pranchas, regras e pistas, e que se manteve competitiva graças a um equilíbrio entre técnica, preparação e vontade.
Claudia Riegler não desembarcou em Milano Cortina com a pretensão de reescrever a história das medalhas; veio para reafirmar que o esporte de alto nível pode ser também uma narrativa de continuidade, de paixão e de coragem. Em um tempo em que se celebra o novo e o rápido, sua carreira oferece uma perspectiva complementar — a de quem constrói autoridade no tempo e redefine expectativas sobre idade e desempenho.





















