Milano Cortina – Em um momento que extrapola o valor simbólico de uma medalha, Chloe Kim, bicampeã olímpica do snowboard, usou a visibilidade dos Jogos para fazer um apelo que mistura identidade nacional e responsabilidade humana. Questionada sobre as duras palavras do presidente Donald Trump dirigidas ao colega norte-americano Hunter Hess – chamado de “perdente” e instado a deixar a equipe –, Kim respondeu com firmeza e sensibilidade: ela se disse orgulhosa de representar os Estados Unidos, mas desejou ver mais amor e compaixão nas reações públicas.
O pronunciamento de Kim ganha densidade não apenas pela sua condição de atleta de elite, mas por sua história pessoal: filha de imigrantes, ela mencionou que as palavras dirigidas a Hess a tocaram de perto. “Obviamente, sendo meus pais imigrantes, isso me afetou muito”, afirmou, ao mesmo tempo em que renovou a solidariedade a Hess e enfatizou a importância da unidade entre os atletas. “Em momentos como este, é realmente importante nos unirmos e nos apoiar, apesar de tudo o que está acontecendo”.
Há, na fala da campeã, uma leitura que vai além do episódio pontual com um dirigente político. O esporte internacional — especialmente em arenas como Milano Cortina — funciona como palco de tensões que condensam identidades nacionais, políticas migratórias e narrativas públicas. Quando um atleta se coloca como porta-voz da dignidade coletiva, ele não apenas reage a uma provocação: reinscreve o papel do competidor como representante de uma nação complexa e plural.
No contexto atual, em que declarações de figuras políticas reverberam instantaneamente nas redes e nos circuitos midiáticos, a posição de Kim é, antes de tudo, um gesto de responsabilização ética. Dizer que se sente orgulhosa de representar um país “que permitiu que meus pais vivessem melhor” é reconhecer benefícios concretos da migração; pedir mais “amor e compaixão” é reclamar uma atitude pública menos hostil e mais construtiva — tanto na presidência quanto na sociedade que a acompanha.
Como observador do esporte enquanto fenômeno social, registro que incidentes desse tipo não se resolvem com condenações individuais. Exigem instituições esportivas e políticas que cultivem códigos de convivência, bem como imprensa e torcedores capazes de avaliar o impacto simbólico das palavras. Atletas como Chloe Kim, pela sua visibilidade e legitimidade, podem exercer papel moderador: não para neutralizar críticas legítimas, mas para lembrar que a crítica faz sentido quando não humilha nem exclui.
O episódio também reforça um traço recorrente nas grandes competições: a coexistência de demonstrações de excelência técnica e de disputas pelo significado público do esporte. Em um país marcado por debates intensos sobre identidade e imigração, a mensagem de Kim soa menos como um apelo ingênuo e mais como um convite à prudência cívica. “Temos o direito de expressar nossas opiniões sobre o que acontece”, disse ela, “e penso que devemos ser guiados pelo amor e pela compaixão, e eu gostaria de ver mais disso”.
Até que esse desiderato se concretize, as palavras de Kim permanecem como registro: um pedido público para que, mesmo em tempos de polarização, o rosto do esporte continue a mostrar a face humana de uma nação — ou, ao menos, a aspiração por ela.






















