Havia uma oportunidade clara para Chivu, para a direção da Inter e para a narrativa do clube: transformar uma crítica em prática e reforçar um princípio ético no futebol italiano. Em vez disso, o episódio da expulsão de Kalulu mostrou como o esporte prefere conviver com a simulação e censura a verdade quando ela é inconveniente.
Duas palavras proferidas antes do jogo pareciam prometer uma atitude diferente. «Serei feliz quando vir um treinador pedir desculpas por ter se aproveitado de um erro arbitral…» disse o técnico interista, em frase que soou honesta e rara no circuito de declarações públicas. Mas entre o pensamento e a ação há uma distância que, no futebol moderno, se preenche muitas vezes com silêncio, justificativas e, por fim, conformismo.
No lance em questão, o jovem e talentoso defensor Alessandro Bastoni caiu no gramado após um contato com Kalulu. Não se tratou de um desequilíbrio involuntário: as imagens e a sequência revelam uma simulação — e a consequência foi imediata e drástica. O árbitro La Penna mostrou o cartão vermelho ao jogador do adversário, que saiu do campo desesperado, apelando para o auxílio do VAR. O protocolo vigente, porém, não permitiu a revisão daquele episódio, outra evidência de um regulamento que, em certos momentos, agrava injustiças em vez de corrigi‑las.
Enquanto Kalulu buscava socorro e explicações, Bastoni não escondeu a sua satisfação: celebrando o desfecho, como se tivesse marcado um gol. A imagem do jogador festejando diante da comissão técnica rival, captada por fotógrafos e pelas câmeras da televisão, configura a primeira omissão de verdade — a da atitude individual que alimenta o erro coletivo.
A segunda omissão ocorreu na entrevista pós‑jogo. Chivu, que havia posicionado-se dias antes com linguagem quase moralizante, levou cerca de uma hora para reaparecer e, ao fazê‑lo, minimizou e reinterpretou o lance. Em vez de manter a coerência do discurso, falou de um «toque», de um desequilíbrio natural. A narrativa foi construída com cuidado, compartilhada com os dirigentes, e teve a cobertura do clube. O diretor executivo Marotta e outros membros do alto escalão colaboraram, conscientemente ou não, para montar uma versão que preservasse o resultado imediato e a imagem coletiva.
Não se trata apenas de censurar um gesto isolado: o episódio revela uma postura sistêmica. O futebol aceita a simulação porque ela produz resultados — expulsões, penalidades, vantagens competitivas — e, ao mesmo tempo, recusa a confissão que poderia desarmar essa vantagem. Há uma resistência institucional em admitir falhas, que vai desde os jogadores até os técnicos e dirigentes, e que alimenta um círculo vicioso de oportunismo.
Como analista, interessa‑me menos o espetáculo do lance do que o que ele nos diz sobre memória e responsabilidade no esporte. Estádios e clubes preservam mitos; administradores gerenciam narrativas; atletas, jovens em formação, observam quais comportamentos são tolerados e recompensados. Quando a verdade é suprimida por conveniência, perde‑se um pouco da capacidade do futebol de ser escola civilizadora.
Se Chivu pretendia ser diferente, a hora de fazê‑lo foi ali — diante das câmeras, com o resultado ainda fresco e a autoridade intacta. Não o fez. Restou‑nos, portanto, o gesto coletivo: uma lição sobre como o futebol, mesmo quando promete autocrítica, escolhe quase sempre a continuidade das práticas que o corroem internamente.
Espresso Italia permanece atento: porque o jogo não termina quando apita o árbitro; ele persiste na maneira como contamos e nos lembramos dele.





















