Por Otávio Marchesini — A Arena di Verona transforma-se esta noite para receber a cerimônia de abertura dos Paralímpicos Milano Cortina 2026, sob o título Life in Motion. A partir das 20:00, o antigo anfiteatro romano, agora rebatizado simbolicamente como Verona Olympic Arena, será palco de um espetáculo que mistura arte, tecnologia e narrativa esportiva, reunindo mais de 600 atletas paralímpicos de todo o mundo.
Escolher a Arena — patrimônio da Unesco e já cenário de cerimônias olímpicas — não é apenas um gesto cénico: é uma afirmação simbólica. Na minha leitura, a opção por um sítio tão carregado de memória torna explícita a intenção italiana de costurar tradição e modernidade, devolvendo ao público uma dramaturgia que coloca o corpo e a superação no centro de uma narrativa cultural. O espetáculo pretende incidir sobre temas recorrentes à tradição paralímpica: resiliência, superação de barreiras e inclusão.
O cartaz artístico mescla nomes internacionais e italianos. Entre os participantes confirmados estão o ex-baterista dos Police, Stewart Copeland, o compositor Dardust — autor do hino oficial —, a vencedora do X Factor 2024, Mimì Caruso, e o trio de DJs Meduza. Um dos focos do espetáculo será também Miky Bionic, primeiro DJ global a se apresentar com uma prótese mioelétrica de última geração: uma imagem potente, que sintetiza a proposta do evento de transformar tecnologia em símbolo de autonomia e agência.
No plano institucional a presença será de alto nível: o Presidente da República, Sergio Mattarella, confirmou presença na Arena. Também são esperados a Presidente do Conselho, Giorgia Meloni, o Presidente da Câmara, Lorenzo Fontana, e o Presidente da Região Lombardia, Attilio Fontana. Entre as autoridades locais, o prefeito Damiano Tommasi, a assessora ao Terceiro Setor Luisa Ceni e o presidente do Conselho Municipal Stefano Vallani estarão presentes. As atividades protocolares começaram já no fim da tarde: desde as 16:30, no Teatro Ristori, a ministra para a Disabilità, Alessandra Locatelli, e o ministro para o Sport e Giovani, Andrea Abodi, receberam delegações e representantes institucionais.
Em campo, as competições já apresentam dramas à parte. No curling de doppio misto, a China venceu a Itália por 8-7 no extra end, em partida decidida pelo último lançamento. Os azzurri dominaram grande parte do jogo: após o quinto end, lideravam por 6-3, mas viram uma recuperação chinesa com três pontos no sexto. A Itália retomou a dianteira no sétimo, mas foi alcançada no oitavo. No desempate, um lançamento decisivo deu a vitória aos chineses.
“Sono comunque contento, la Cina è una squadra veramente forte, che temevamo più di altre, e abbiamo giocato alla pari. Siamo sempre stati in partita arrivando all’extra end. Purtroppo poi si perde anche per un sasso”, comentou Paolo Ioriatti após a partida, sintetizando a frustração técnica que muitas vezes decide confrontos no alto nível. A atleta Orietta Bertò acrescentou uma leitura igualmente serena: foi “uma experiência positiva apesar da derrota, li abbiamo messi in difficoltà”.
Há ainda menção a outro resultado citado nos primeiros relatos: uma derrota italiana por 6-5 diante do Japão, sinalizando que a trajetória esportiva da delegação faz-se de tropeços e reacordes — uma representação fiel da tensão entre expectativa pública e realidade competitiva.
Enquanto a cidade se prepara para o espetáculo noturno, a leitura que proponho é dupla: por um lado, há o espetáculo produzido pelo aparato cultural e político; por outro, estão as competições, com sua crueza e imprevisibilidade. Juntos, ambos revelam muito sobre o lugar do esporte no Teatro Público contemporâneo — não apenas como entretenimento, mas como dispositivo de memória coletiva, tecnologia e identidade nacional.
Ao leitor, fica a recomendação de seguir a cerimônia com um olhar atento: mais do que fogos e figurinos, trata-se de uma peça sobre mobilidade, tecnologia e representação social. E, nas pistas, acompanhar jogos como o do curling é entender que pequenos gestos e decisões minuciosas podem moldar narrativas maiores — desde um end decisivo até o modo como uma nação interpreta sua própria vulnerabilidade e força.






















