Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
Em decisão anunciada publicamente pelo goleiro Logan Thompson, a seleção masculina do Canadá de hóquei optou por não se instalar no vilarejo olímpico de Milão e transferiu a sua base de operações para um hotel 5 estrelas na cidade. “Ninguém precisa se ofender — disse Thompson em postagem no blog do jornalista Stephen Lang —. Queremos simplesmente ganhar medalhas de ouro e estamos montando as melhores condições para isso.”
A decisão, embora curta e prática na formulação, carrega implicações maiores sobre a relação entre elite esportiva, segurança, rotina e imagem pública dos Jogos. O time canadense, formado por estrelas milionárias habituadas a compromissos comerciais e a uma infraestrutura particular, já havia chamado a atenção ao usar o metrô rumo à Piazza Duomo como se fossem turistas comuns. Ainda assim, a escolha por um hotel de luxo responde à busca por privacidade, controle de logística e preservação de rituais de preparação — fatores que a equipe considera essenciais em uma competição de altíssimo nível.
Vale lembrar que a mesma opção foi adotada por outra potência esportiva recente: nas Olimpíadas de Paris 2024, as seleções de basquetebol dos Estados Unidos — masculina e feminina — preferiram um grande hotel no centro da cidade, num investimento que rondou cifras altas (relatos apontam para cerca de 15 milhões de dólares). Esses movimentos não são meramente capricho; sinalizam uma profissionalização que transforma o conceito tradicional de “vilarejo olímpico”.
Ao mesmo tempo, há uma narrativa concorrente: atletas que elogiaram as estruturas do vilarejo em Milão, observando que “a cama não é de papelão” e elogiando a cantina com uma “massa de nível 8”. Essa dicotomia evidencia que o debate não é apenas sobre conforto, mas sobre o que cada delegação prioriza — integração e simbolismo coletivo contra isolamento e eficiência individual.
Do ponto de vista histórico, o Canadá é referência incontestável no hóquei: 9 medalhas de ouro em Olimpíadas, 28 títulos mundiais, 4 Canada Cups em 5 edições e uma World Cup of Hockey. É natural, portanto, que uma seleção com esse peso e responsabilidade operacional procure as condições que julga oferecer maior probabilidade de êxito.
Como analista cultural do esporte, vejo essa escolha como sintoma de uma transformação mais ampla: os jogos modernos convivem com dois requisitos contraditórios — a cerimônia universalista e a demanda por alta performance individualizada. Quando uma seleção decideixar o vilarejo por um hotel de luxo, ela está verbalizando uma prioridade explícita sobre rotina, segurança e controle de ambiente, numa época em que margens de erro são mínimas e interesses econômicos são significativos.
Se a decisão terá impacto na percepção pública dos Jogos ou na convivência entre atletas, isso dependerá de como for comunicada e compreendida. Para a delegação canadense, ao menos por enquanto, trata-se de cálculo pragmático: reduzir variáveis externas para preservar o foco na busca por mais um ouro.
Dados confirmados: a transferência foi tornada pública por Logan Thompson, o primeiro jogo do Canadá está marcado contra a República Tcheca, e a seleção mantém seu histórico como potência do hóquei mundial.





















