Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O que começou como uma celebração da diáspora canadense transformou-se, em poucos dias, em uma lição sobre memória, rivalidade e o caráter imprevisível do esporte. Torcedores vindos de Montreal e Vancouver, muitos em viagem de retorno simbólico à Europa como descendentes de emigrantes italianos, ocuparam a arena de Santa Giulia em Milão com seus casacões vermelhos. Eles esperavam festas e glória. Voltaram para Malpensa com duas medalhas de prata amargas no peito.
O motivo é simples e humilhante para um país que se considera a pátria do hóquei: em dois jogos finais distintos — a feminina, em 19 de fevereiro, e a masculina, no último dia dos Jogos — o Canadá foi derrotado pelos Estados Unidos por 2-1, ambas as decisões tiradas por um golden gol. No feminino, o gol decisivo americano chegou aos quatro minutos do tempo extra; no masculino, a sentença foi cunhada ainda mais cedo, aos 1:41 do primeiro período de prorrogação.
São dois atos de uma mesma peça: estruturas diferentes (times, contextos, trajetórias esportivas) que, no resultado, se sobrepõem. Para a torcida canadense, é menos uma derrota técnica do que um golpe simbólico — uma fratura na narrativa de superioridade que acompanha o país desde as primeiras lâminas de patins sobre o gelo. Para observadores com olhar histórico, trata-se de um lembrete de que rivalidades nacionais se alimentam de episódios que reverberam na memória coletiva e nas identidades regionais.
Além do fator esportivo, a cena contém elementos de comédia amarga. Duas mulheres que deixavam a pista após a premiação resumiram com ironia a sensação no ar: “Poderia ter sido pior, muito pior. Poderia ter havido Trump nas tribunas.” A fala, concisa, traduz o entrelaçamento entre política, espetáculo e turismo que acompanha jogos de grande visibilidade.
Milão, que disputou com Cortina e outras cidades a centralidade simbólica destes Jogos, passou a abrigar, ainda que por contraste, as chamas gêmeas de um festival esportivo e de frustrações públicas. O Aeroporto de Malpensa verá retornar um contingente que, para parte dele, tinha na viagem uma dimensão de reencontro com raízes — e que agora carrega nas malas uma dupla sensação de perda.
Do ponto de vista do desenvolvimento esportivo, as derrotas por golden goal sugerem margens mínimas entre triunfo e frustração: decisões que se resolvem em segundos e que podem alterar trajetórias de seleções, programas de formação e narrativas nacionais por anos. O hóquei canadense terá tempo para reflexão. Se a história esportiva serve de guia, as reações serão menos emotivas e mais estruturais: reavaliar práticas, fortalecer categorias de base e, sobretudo, interpretar estas finais não como acidentes, mas como sinais sobre como a modalidade evolui além das fronteiras tradicionais.
Um país que vive o hóquei como identidade enfrentou em Milão a dura lição de que nem sempre a tradição garante a vitória. Restam as lições e a expectativa de que a próxima convergência entre Canadá e Estados Unidos no gelo traga outra narrativa — talvez de recuperação, talvez de confirmação, mas certamente carregada de sentido para fãs e para a história do esporte.
Otávio Marchesini — Repórter de Esportes, Espresso Italia






















