Por Otávio Marchesini, repórter de Esportes da Espresso Italia
Menos de oito meses após assumir a presidência do CONI, Luciano Buonfiglio sentou-se para ler, comentar e interpretar o que acaba de se tornar a edição mais vitoriosa dos Jogos Olímpicos de Inverno para a Itália. O balanço é numérico — recorde de medalhas: 22 pódios — e também simbólico: uma vitória marcada pela força feminina e pela consolidação de um sistema que parece finalmente funcionar em rede.
Ao ser questionado sobre qual conquista o tenha tocado mais, Buonfiglio destacou figuras que, além do resultado, representam trajetórias dramáticas e significativas. Entre elas, a imagem de Lollobrigida vencendo com o filho no colo e a recuperação triunfal de Federica Brignone, que após um grave acidente viu-se inicialmente na posição de apenas participar — e voltou para conquistar dois ouros. Há também a persistência de Arianna Fontana, cuja determinação comoveu o presidente: “a minha emoção é pelas mulheres”, disse Buonfiglio, reconhecendo a predominância feminina nos pódios (sete ouros em oito provas, considerando a staffetta mista do short track).
Essa superioridade relativa do feminino, no entender de Buonfiglio, diz algo sobre as fronteiras sociais: “talvez o esporte esteja mais à frente nas relações homem‑mulher em comparação com a sociedade civil: no esporte há mais respeito, atenção ao resultado e não ao gênero”. A leitura, feita com o distanciamento de quem vê instituições e trajetórias, sugere que o campo esportivo foi capaz de acelerar processos de igualdade que a vida pública ainda hesita em consolidar.
O presidente do CONI também não economizou lucidez sobre derrotas e quase‑vitórias: lembrou do ouro que escapou com Paris, quando um esqui se soltou no super‑G e mudou o destino de uma prova decidida nos últimos segundos. Citou ainda Franzoni, memória de quem partiu, e episódios de adversidade como a queda de Moioli em treino e a indisposição de Vittozzi, que mesmo assim voltou a não errar.
Para Buonfiglio, cada medalha é “um pequeno romance” — um conjunto de decisões, cuidados técnicos e uma preparação que não admite casualidades. A explicação do sucesso italiano passa pela estrutura: atletas, grupos esportivos militares, federações, o Instituto de Medicina do Esporte e o apoio governamental. “Hoje, para vencer, não se pode deixar nada ao acaso; é preciso a atenção exacerbada ao detalhe”, afirmou, sublinhando que isso é sintoma de profissionalismo e planejamento.
O relato também tem pitadas de diplomacia estratégica: Buonfiglio reafirmou que ao se candidatar apresentou um plano ao ministro Giorgetti e o compartilhou com colegas, recrutando técnicos competentes e promovendo estágios e concentrações pelo mundo. “Gosto de vencer, não apenas de participar”, disse, definindo um perfil executivo para a liderança do esporte nacional.
Não faltou uma anedota que humaniza a comitiva olímpica: o presidente da República, Sergio Mattarella, teria aguardado a prova do slittino até cerca de 23h — um gesto que, para Buonfiglio, confirma a centralidade simbólica do evento e o afeto institucional pela campanha.
Mais do que números, o que Buonfiglio entrega aos leitores é uma interpretação: o resultado em Milano Cortina não é um acidente, mas a expressão de um ecossistema que, entre tradições militares e novas práticas de formação, encontra um equilíbrio ofensivo. Em termos históricos e culturais, essas 22 medalhas dizem tanto sobre as políticas esportivas adotadas quanto sobre a capacidade do país de produzir narrativas de superação — especialmente através das mulheres, que nesta edição assumiram o protagonismo.
Se cada medalha é um capítulo, Buonfiglio admite o desejo de compor esse livro. Como repórter e analista, observo que o desafio futuro será manter a atenção aos detalhes sem perder a visão de conjunto: transformar sucesso pontual em uma memória coletiva e em políticas sólidas para a próxima geração.





















