Por Otávio Marchesini — Espresso Italia
A vitória de Federica Brignone no Super‑G de Milano Cortina 2026 é, antes de tudo, uma narrativa sobre recuperação, identidade esportiva e memória coletiva. Ontem, a campeã subiu ao lugar mais alto do pódio em uma prova que ficará registrada não apenas pelos centésimos, mas pelo significado social que carrega: voltar a competir no mais alto nível após um grave infortúnio.
No post publicado nesta sexta‑feira, 13 de fevereiro, no seu perfil do Instagram, Brignone legendou a sequência de fotos — um beijo na medalha de ouro e a celebração com a equipe — com “Pura FOLLIA” e um lacônico “grazie”. A reação pública que se seguiu teve como destaque o comentário de Jannik Sinner, número dois do mundo no tênis e figura cada vez mais presente na cena esportiva italiana, que respondeu com dois emojis, entre eles uma chama, expressão curta mas carregada de afeição e reconhecimento.
O gesto de Sinner merece ser lido em duas camadas. A primeira é pessoal: ex‑esquiador nas suas origens e conhecido apreciador das modalidades de neve, ele estabelece uma identificação direta com a jornada da atleta. A segunda é simbólica: quando um dos maiores nomes do esporte italiano — ainda que de outra modalidade — celebra uma conquista do esqui, reforça uma conversa pública sobre integração das identidades esportivas nacionais e sobre como grandes êxitos servem de referência para uma geração.
Brignone, cujo retorno à elite foi marcado por determinação e trabalho conjunto com sua equipe técnica, transformou uma hipótese dolorosa — a de não participar dos Jogos — em fatura histórica. A imagem dela beijando a medalha e abraçando os companheiros no pódio sintetiza esse processo de reconstrução. É uma cena que, além do brilho pessoal, reaviva o papel do esporte de inverno no imaginário italiano que acolhe Milano Cortina 2026 como palco de uma nova era.
Como analista, não me detenho na efemeridade do post ou na viralidade do comentário. Prefiro insistir no que esses sinais comunicam para o tecido social: reabilitação, solidariedade entre modalidades e a persistência de uma narrativa nacional que encontra no esporte imagens de superação. O ouro no Super‑G é, portanto, metáfora e evento — um marco competitivo e cultural ao mesmo tempo.
Nos próximos dias, será importante observar as repercussões institucionais e locais: como clubes, federações e a própria mídia italiana processarão essa história; que espaços de formação e recuperação serão valorizados; e de que forma a visibilidade conquistada por Brignone poderá inspirar políticas públicas e privadas voltadas à medicina esportiva e à carreira pós‑lesão.
Enquanto isso, fica o gesto simples e significativo de Sinner: uma chama e pouco mais, mas suficiente para selar um reconhecimento público entre atletas, reforçando que, por vezes, a dimensão mais relevante de um ouro é a qualidade dos ecos que produz.






















