Em Cortina d’Ampezzo, com a paisagem ainda coberta por uma leve nevasca que complicou a preparação de algumas atletas, chega a vez do Slalom Gigante — última cartada para muitas competidoras antes do encerramento dos jogos. Entre elas, duas figuras que representam muito do que o esqui alpino italiano carrega em termos de tradição e resistência: Federica Brignone e Sofia Goggia.
A leitura mais imediata é de liberdade: ambas se apresentam no portão de largada sem a pressão de resultados obrigatórios — para Brignone e Goggia esta será a última prova nesta edição das Olimpíadas de Inverno. Ainda assim, o significado vai além do pódio. Para a bergamasca Brignone, o gigante é terreno onde, em condições normais, seria candidata. A temporada, porém, não lhe deu muitos sinais: seus melhores resultados foram dois oitavos lugares, em Semmering e Tremblant.
De volta de um grave infortúnio em abril passado, Brignone mostrou em janeiro, no Plan de Corones, que sua recuperação não foi apenas física, ao terminar em sexto na primeira prova após o retorno. Ela própria reconhece as limitações do ciclo de treinos: “Devo fazer o máximo com o que tenho, serão cerca de três minutos de performance; quero aproveitar minha experiência e capacidade técnica. Fisicamente me sinto bem, não tenho grandes déficits e um pouco de dor existe sempre, mas estou melhor” — palavras que traduzem a prudência de quem sabe medir risco e ambição.
Já Sofia Goggia, vinda dos vales do noroeste italiano, entra na pista com uma leveza imposta pela conquista recente: o ouro no super-G. Esse feito, mais que um troféu, liberta-a da ansiedade por resultados e transforma o gigante numa prova para ser vivida sem expectativas sufocantes. Goggia confessou que fez alguns treinos entre as portas largas em Dobbiaco e preferiu manter a calma com o mau tempo: “Nesta disciplina vou aos pedaços; espero ser eu mesma e encarar sem expectativas”.
O quadro italiano será completado por Lara Della Mea e Asja Zenere, num quarteto que carrega diferentes histórias de carreira e representatividade regional — da Lombardia ao Vale de Aosta — e que resume as tessituras locais do esporte.
Do outro lado, a pressão recai sobre a austríaca Julia Scheib, líder do gigante na Copa do Mundo com quatro vitórias e mais um pódio. Entre as adversárias, atentos estarão a campeã olímpica em título Sara Hector e a sempre presente Mikaela Shiffrin, em busca de redenção após a decepção na combinada por equipes.
Além da técnica e do preparo, haverá que se contar com a variável meteorológica: a neve fresca pode alterar a leitura da pista e nivelar possibilidades. Em termos simbólicos, o duelo Brignone–Goggia reproduz um traço do esporte italiano contemporâneo: a tensão entre expectativa coletiva e reinvenção individual, entre legado e recuperação.
Quando o cronômetro começar, não será só uma corrida por medalhas — será um retrato da resiliência, onde a história pessoal de cada atleta se confunde com a memória esportiva de uma nação que sempre tratou a montanha como palco de identidade.






















