Por Otávio Marchesini, Espresso Italia
O cenário das montanhas nevadas de Bormio ofereceu, nesta edição dos Jogos de Milano Cortina 2026, uma cena que mistura rito, surpresa e deslocamento de identidades: o Brasil conquistou sua primeira medalha de ouro em Olimpíadas de Inverno. O feito, além de esportivo, carrega simbolismos sobre mobilidade, filiação e a capacidade do esporte de reescrever histórias nacionais.
O protagonista desta virada foi o esquiador identificado nas pistas como Lucas Pinheiro, que até recentemente competia sob outra bandeira. Nascido e formado na Noruega, o atleta trocou de federação em 2024, decisão motivada por atritos com sua entidade formadora e facilitada por laços familiares brasileiros. O resultado em Bormio é tanto a conclusão de uma trajetória técnica — herdada de um ambiente norueguês de excelência no esqui alpino — quanto a afirmação de uma escolha identitária: o capacete exibindo o lema “vamos dançar” transformou-se em símbolo de liberdade performativa na pista.
Mais que a efêmera imagem do samba sobre a neve, o ouro brasileiro em Bormio reverbera porque sucede a uma narrativa que, há pouco tempo, tornava inverossímil a ideia de um país tropical no topo do pódio de esportes gelados. Em termos práticos, trata-se de uma vitória que combina técnica escandinava e declaração cultural, um cruzamento que raramente aparece com tal clareza nas Olimpíadas.
Ao lado dessa história singular, outra constatação de longo prazo se confirmou: a consolidação da Austrália como potência pontual dos desportos de inverno, sobretudo em modalidades como freestyle e snowboard. A conquista da medalha de ouro por Jakara Anthony — que repetiu o triunfo de Pequim 2022, ainda que em categoria distinta — é o reflexo de um projeto esportivo pensado para contornar a distância geográfica do hemisfério sul ao velho continente.
Desde 2011, o Australian Institute of Sport mantém um centro estratégico em Gavirate, às margens do lago de Varese, facilitando a presença de atletas aussie em competições europeias e oferecendo uma base logística próxima ao arco alpino e ao aeroporto de Malpensa. Esse arranjo revela a dimensão planejada da política esportiva australiana: investimentos que combinam deslocamento, convivência com ambientes de neve e preparação técnica continuada.
Historicamente, o primeiro ouro australiano em Jogos de Inverno veio em 2002, com o episódio célebre de Steven Bradbury no short track; pouco depois, Alisa Camplin trouxe outra medalha de ouro no freestyle. Desde então, o país do Pacífico soube consolidar nichos de excelência, produzindo talentos que transitam entre montanhas do Victoria — como Mount Buller e Mount Hotham — e centros europeus de treinamento.
Em conjunto, as histórias do Brasil e da Austrália em Milano Cortina 2026 contam uma versão dos Jogos que dialoga com mobilidade, política institucional e identidade cultural. Não se tratou apenas de resultados: foram performances que expõem como federações, escolhas pessoais e projetos estruturais moldam, discretamente, o mapa contemporâneo do esporte de inverno.
Enquanto se decantam imagens e narrativas, resta a sensação de que estas Olimpíadas, além de registrar lesões e dramas competitivos, ampliaram o repertório simbólico do evento: há agora um samba no sopé das Dolomitas e uma escola australiana bem plantada à sombra dos picos europeus. São episódios que prometem reverberar na memória coletiva do esporte.
Espresso Italia — análise e contexto, não apenas resultados.






















