Por Otávio Marchesini, Espresso Italia — Franco Bragagna não esconde a frustração ao comentar a cerimônia de abertura dos Jogos de Milão-Cortina. Após 35 anos na emissora pública e a experiência direta em cerca de 17 edições olímpicas, hoje ele é rosto fixo na cobertura da Sky. Ainda assim, o laço com a Rai persiste e a decepção com os deslizes exibidos na transmissão chamou sua crítica dura: “Comigo, a empresa é autolesionista.”
No centro da análise de Bragagna estão escolhas de linguagem e preparo jornalístico. Para ele, a emissora pública — cujo papel vai além de narrar resultados — tem obrigação de oferecer uma apresentação que una o país: “Num evento desta dimensão, o condutor deve falar um italiano limpo, sem calques regionais, para que todos se identifiquem.”
O jornalista recorda que a cerimônia exige conhecimento transversal: esporte, geopolítica, cultura. “É preciso ter anticorpos”, afirma, parafraseando a ideia de que a transmissão precisa de preparação profunda para resistir aos imprevistos e às armadilhas de espetáculo. Quando isso não acontece, na avaliação dele, trata-se de uma “enorme sopravvalutazione di sé” — uma autossupervalorização que se paga em público.
Entre as gafes que viralizaram, Bragagna destaca uma omissão simbólica: o reconhecimento exclusivo de Paola Egonu entre os nomes do voleibol, quando os capitães da seleção também eram Simone Giannelli e Anna Danesi. “Eu sou vizinho de Giannelli — ambos somos de Bolzano — e vi no telão que todos os nomes constavam. Não se pode reduzir a referência apenas a uma figura”, critica.
Outro episódio que suscitou revolta foi a troca de identidades entre uma autoridade do Comitê Olímpico Internacional e uma personalidade italiana: a presidente do COI, Kirsty Coventry, foi confundida com Laura Mattarella, filha do Presidente da República. Para Bragagna, esse tipo de erro é inaceitável num canal institucional.
Ao ser perguntado sobre sua situação pessoal com a emissora, Bragagna foi contido: “Tenho muitos amigos na Rai que comentam com ironia o chamado tafazzismo da empresa. Não me aprofundo mais.” O termo remete a uma autorreferência autodestrutiva, que ele já havia sintetizado ao acusar a empresa de agir como se se autodestroísse.
A crítica de Bragagna não se limita a apontar rostos ou sotaques: ela se enraíza numa visão institucional do jornalismo esportivo. Para ele, a cobertura olímpica é um ato de memória coletiva e construção de identidade — função que exige respeito ao público, preparação histórica e cultural, e uma consciência das implicações simbólicas que cada deslize transmite.
Ao fim, a posição pública de Bragagna ecoa um debate mais amplo sobre o papel das emissoras públicas em tempos de espetáculo global: quando a representação se equivoca, a falha não é apenas técnica; é política e cultural.
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